Pensando gestão rural – e os alimentos contaminados

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A população brasileira foi recentemente surpreendida com informações referentes à contaminação de alimentos básicos, como o leite (presença de ureia em 2013), achocolatado Toddynho (presença de detergente em 2011), suco de maçã Ades (presença de soda cáustica e água em 2013), ketchup da Heinz (presença de pelos de rato em 2012), salgadinho da Elma Chips (filhote de rato morto em 2011).

Mas será que estes fatos acontecem somente no Brasil? Na Suécia, foram identificadas bactérias fecais em bolos de amêndoas e resíduos de carne de cavalo em almôndegas (ambas as contaminações da empresa IKEA, em 2013). Na Espanha, foi detectada a presença de bactérias Escherichia coli em pepinos, causando a morte de pelo menos 12 pessoas na Alemanha (em 2011). Na China, foi encontrada a presença do produto químico DEHP (di-2-etil-hexil-ftalato), geralmente utilizado para amolecer plásticos, no chá verde em pó (em 2011). No Reino Unido, constituído pela Escócia, Inglaterra, Irlanda do Norte e País de Gales foram retirados do mercado Hamburgers bovinos que continham a presença de carne de cavalo (em 2013). Um estudo publicado pela Environmental Working Group (EWG) – uma organização não governamental americana que trata de problemas ambientais e de saúde, apresentou os 12 alimentos mais contaminados nos Estados Unidos por agrotóxicos e que mantém resíduos tóxicos mesmo depois de lavados, são eles: maçã, aipo, tomate cereja, pepinos, uvas, pimentões, nectarina, pêssego, batatas, espinafre, morangos, pimentões.

E como está a contaminação dos alimentos por agrotóxicos no Brasil, tricampeão mundial na venda de produtos químicos para a lavoura? O Brasil é responsável por 20% do mercado de agrotóxicos no mundo, tem um consumo de 5 litros de agrotóxicos por habitante por ano, isso sem considerar os produtos usados irregularmente. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa, divulgou em 2010 o relatório do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, apontando que os principais alimentos que apresentam presença de ingredientes ativos não autorizados e presença de ingredientes acima dos limites máximos permitidos, em diferentes estados brasileiros, são: pimentão (91,8% das amostras), morango (63,4% das amostras), pepino (57,4% das amostras), alface (54% das amostras) e cenoura (49,6% das amostras). No geral, 28% das amostras apresentaram irregularidades, e os três prinicipais ingredientes ativos encontrados foram: carbendazim, clorpirifos e metamidofos. É sabido que o consumo prolongado de alimentos contaminados por agrotóxicos ao longo de 20 anos pode provocar doenças como câncer, malformação congênita – defeito na constituição de algum órgão presente no nascimento, distúrbios endócrinos, neurológicos e mentais. Um estudo realizado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), publicado em 2013, identificou que um herbicida amplamente empregado no país na cultura da cana de açúcar, citros e videira, provoca câncer de bexiga em ratos mesmo em doses cinco vezes menores às consideradas de risco.

Parece evidente a necessidade de conscientização dos consumidores e produtores com relação à qualidade dos alimentos, e quais são as alternativas! Cabe aos órgãos que trabalham com extensão rural, a difusão de informações relacionadas às boas práticas agrícolas, ou seja, multiplicar um conjunto de princípios, normas e recomendações técnicas aplicadas para a produção, processamento e transporte de alimentos, orientadas a cuidar da saúde humana, proteger ao meio ambiente e melhorar as condições dos trabalhadores e sua família. Às secretarias municipais e estaduais de agricultura cabem a fiscalização referente à indicação, manipulação e aplicação dos produtos agroquímicos. Aos responsáveis pela saúde, cabe a fiscalização da qualidade dos alimentos e o apoio a projetos de produção agroecológica.

A produção agroecológica busca implantar uma agricultura mais sustentável, obtida por meio de tecnologias como manutenção da biodiversidade, manejo adequado da água e do solo, adubação orgânica por meio da utilização de compostos e vermicompostos, adubação verde com utilização de leguminosas fixadoras de nitrogênio, coberturas vegetais mortas, manejo ecológico doenças por meio de caldas fitossanitárias ou biofertilizantes líquidos e manejo ecológico de pragas, por meio de agentes biológicos de controle. Apenas 2% da produção de alimentos no Brasil seguem os princípios da agroecologia. Em agosto de 2012, foi instituida a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO) no Brasil, com o objetivo de articular e adequar políticas, programas e ações voltados para o desenvolvimento da agricultura sustentável. Para finalizar, se observa que a qualidade dos alimentos deve ser uma exigência mínima realizada pelos consumidores a ser garantida pelos produtores rurais e toda a cadeia produtiva, ambos cada vez mais conscientes dos danos muitas vezes irrecuperáveis provocados pela exposição a insumos e produtos danosos à saúde e à qualidade da vida humana.