A Ascensão de Apolinário

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Quando Apolinário chegou à sua mais nova residência, um cortiço aos moldes barrocos, afeiçoados em um marrom castigado pelo tempo, observou as velhas venezianas deterioradas, os gatos caminhando pelos telhados, azulejos marfim, tanques em abundância, fios elétricos transpassados de um apartamento para outro, varais com grandes lençóis estendidos e um falatório típico da cultura popular. Músicas bregas, telenovelas em volume alto, rádio para os aposentados e por fim, algumas visitas mensais da Drª. Ângela, oficial de justiça da cidade.

Já estava tudo pronto, a mobília básica postada nos lugares estratégicos do pequeno cômodo. Apolinário abriu logo a primeira cerveja, inaugurando de maneira lúdica sua nova estadia. Pensou no bom tratamento oferecido por Vanda desde seus primeiros contatos para aluguer o imóvel. Pouco se sabia dela e logo percebeu que devido à falta de documentação exigida pela proprietária, o fluxo de moradores não permitia o estabelecimento de uma comunidade fixa. A princípio, Apolinário achou até bom, pois como era um pouco avesso a amizades, assim seria um modo eficaz de manter-se isolado de perguntas e conversas cotidianas.

Aos poucos, notava a movimentação do apartamento de cima, uma mulher de seus 30 anos parecia oferecer algum serviço extra sem sair de casa. Diferentes automóveis chegavam ou simplesmente a pegavam na esquina – sempre em horários alternativos, como no meio da manhã, onde todos já estavam no trabalho, ou antes do por do Sol , antecedendo a chegada dos nobres operários cristãos.

Apolinário não era de nada bobo e como fazia seus trabalhos jornalísticos freelancer esporadicamente, dedicava seu tempo a observar o comportamento humano através de sua apurada ótica de psicanalista social. Sua vida ia aos poucos tornando-se monótona e cansativa. Logo abriu a caixinha de correspondência comunitária para enfim descobrir o nome de sua suspeita.

Além de pouco constatar de fato, os mistérios que envolvia sua vizinha – Vanda também mantinha um passado emblemático. Pouco se sabia de sua vida, a não ser que investia em pensões baratas e atualmente estava empreendendo com sobrados para estudantes chegados do interior. Era admiravelmente liberta. Sem homens, pelo menos as vistas. Cuidava da aparência, abusava dos decotes e guiava seu carro como ninguém. Eu tenho minhas posses! Esbravejava Vanda ao criticar o machismo dos homens que enquanto babavam-se em conhaques velhos, analisavam a existência sofrida à luz da filosofia pessimista ocidental.

Certo dia, quando Apolinário estava num bar das adjacências, notou o dono do lugar comentar com outro terráqueo sobre Vanda e sua estabilidade financeira. Ia dizendo que a época de funcionário do banco do estado, seu Ignácio Flores da Cunha, antigo empresário local, proprietário de um conjunto de mercearias, sustentava Vanda na condição de sua amante, pagando-lhe polpudas mesadas em troca de um amor extraconjugal. Seu Ignácio era cliente do banco e tratava pessoalmente suas finanças com o atual dono do bar. Quando o filantrópico desfaleceu, Vanda possuía um bom capital para adentrar no ramo imobiliário. Agora era Dona Vanda, mulher de valor que deixara o veneno sutilmente para o grand finale.

Após o furo de reportagem, Apolinário automaticamente passa sua vizinha para segundo plano e movido por um plano metafísico de contragolpe, volta para seu aconchego primitivo para arquitetar sua investida. Vanda era o exemplo de cobra criada, peixe grande mantenedora de cortiços, pensões, albergues e tudo o mais. Alguém com o antídoto necessário para cruzar seu caminho e sem medo, mergulhar no covil do lobo para então extasiar-se de prazer.

Numa tarde qualquer, ao encontrar-se com seu alvo, Apolinário desfere suas técnicas apolíneas em busca do objetivo centralizador. Depois dos cumprimentos, com Vanda indagando sobre o conforto de sua estada, aproveita prontamente para oferecer seus cuidados relativos a consertos elétricos, corte na grama e manutenções de encanamento. Relata também sua aptidão para massagens, sustentando que num passado próximo, aprendeu uma técnica milenar para aliviar tensões do dia a dia.

Dias e noites depois, Vanda liga para Apolinário pedindo para subir no seu belo e suntuoso apartamento. Ficava na fachada da casa, em cima da garagem principal. Era de longe o mais conservado, bonito e confortável dos que ali permaneciam. Decididamente arrumado e com a colônia em destaque sensorial do olfato, ruma confiante para seu encontro.

Quando chega, vê Vanda de vestido simples e maquiada, na companhia de sua vizinha de cima que ia moendo limões para a confecção das primeiras caipirinhas do dia. Apolinário sorriu, sorriu e sorriu.

Passado algumas semanas, nosso mais novo homem desfilava sua honra como bonde de carnaval descendo ruas e vielas do bairro. A partir dali, ficou conhecido como seu Apolinário, homem de respeito. Entretanto, quando passeava pelas lojas, armazéns e demais estabelecimentos, o povo sempre o apontava pelas costas proferindo: “Ali vai o terror das cercanias”. Apolinário somente sorria, exalando fumaça com seu charuto Montecristo, enquanto contemplava as vitrines pensando no que comprar naquele dia.