A condição do gato

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Olho complacente para os gatos – sabendo que mesmo sem possuir a faculdade de raciocinar tal como os seres humanos, seus impulsos atendem numa totalidade constrangedora suas necessidades existenciais. Noto plenamente sua autonomia comportamental, e apesar do mesmo focar-se principalmente ao repouso, ainda assim, o faz consciente e na mais absoluta tranquilidade terrena.

O gato jamais suspira diante de sua condição, pelo contrário, a cada relance de olhar, uma resposta de autoafirmação que desconcerta a quem o contempla. Quando não está ameaçado por algum predador, caminha sempre com classe, desfilando suavemente seu pensar disfarçado. Ao acordar, é novamente inflado de uma ânsia de viver, como se a cada dia surgisse a possibilidade de novos acontecimentos. O que é a mais pura verdade – o problema é talvez a sua noção desse fenômeno.

Quantas pessoas já proferiram as seguintes palavras: – Eu não gosto de gato! As explicações para tal protestação, geralmente recaem numa possível índole interesseira do animal – um desapego de carinho e cuidados não suportado pelo ser humano. Penso primeiramente na condição de exímios manipuladores de nossa espécie. Tentamos incorporar nos gatos nossa maior falha, pela qual, comportam-se autonomamente no mais irrestrito controle. Traduzem sua vida a exemplo da filosofia que Jean-Paul Sartre (1905-1980) postumamente iria desenvolver batizando-a como “Ser-em-si”. Daí emerge nossa revolta, pois não conseguimos suportar o seu desapego intimidador. Deturpamos nossos maliciosos dizeres em frases como: “Os gatos são animais que não gostam de carinho”! Repetimos tanto, que o senso comum já abrangeu como aforismo popular.

A menção sobre a não aceitação da autonomia existencial do gato, dá-se unicamente devido nossa existência ser pautada por diferentes escolhas. São dilemas que permeiam por toda uma vida. Dilemas morais do “Ser-para-si” e do “Ser-em-si”, conforme Sartre assim articulou. A sobrecarga mundana despejando seus lamentos enquanto nos cerca pela fatalidade de sempre ter que escolher um caminho. Exercitar até o último suspiro a vontade de representação e o livre arbítrio.

Verdade que a vida categoricamente cobra seus impostos, já disse isso em outros textos. O certo e o errado. A polarização do Apolo e Dionísio de Nietzsche (1844-1900). Tranquem o Dionísio em suas entranhas e sabiamente deixem Apolo desfrutar do comando de suas atitudes. Aceitem as convenções sociais sem jamais pestanejar. Adequem-se as regras.

Escolham uma religião. Qual sua filosofia preferida? Qual a sua área de atuação? Sufoquem seus desejos, matem brutalmente seus instintos. Condicionem-se ao obscuro leito ético e evasivo.

Enfim, entre o doce e o salgado, o frio e o quente, a vida e a morte, impera o gato liberto dos cafifentos dilemas. Desprovido das possíveis crises, melancolias e incertezas humanas. A questão reside no egoísmo de querer transformar a concepção felina ao nosso querer pulsante, ditatorial e cego. Não aceitamos o gato com suas características peculiares.

Preferimos grotescamente rejeitá-lo e rotulá-lo. Afinal, como também aqui já dissertei em textos anteriores – rotular é nosso brinquedo indispensável.

Teremos humildemente que admitir que olhar o superior do gato nos incomoda no fundo do espectro. Sua liberdade “esclarecida”, tal qual Immanuel Kant (1724-1804) desenvolveu em sua Teoria Crítica, é profética, sábia e atemorizante.

Devemos observar que além do gato existir como bicho de estimação, serve antes de tudo como instrumento de materialização do pensamento de Sartre. O mesmo quando mirou seu gato em meio ao ato de escrever, assim pressagiou: – Estamos eternamente condenados à liberdade!