A filosofia existencialista de Fahrenheit 451

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Num futuro não especificado, onde os bombeiros já não são mais os mesmos bombeiros que conhecemos. Aqui, os mesmos estão incumbidos de outra tarefa. Um desvirtuamento nefasto dos tempos presentes para um futuro ameaçador e sórdido. Ficção Científica Soft? A princípio sim. Afora isto, um cenário rico em filosofia existencialista. De Heidegger a Sartre. Os elementos se mesclam formando uma atmosfera interrogativa. Numa linguagem metafísica a partir de uma perspectiva do futuro, temos o “sair-de-si” para então nos “autoanalisarmos”. O que estamos fazendo? Ou melhor, o que estou fazendo? Será que o sentimento do amor desperta para algo além de nossas fronteiras perceptivas? Será? Será que as portas da percepção só abrem-se em situações de total desespero? Uma vida mecânica, rotineira e ponderada. Como podemos revolucionar o comportamento automático?
A cada escolha – uma responsabilidade. Ao levarmos adiante uma gama de escolhas, a responsabilidade cada vez aumenta mais. E quando saímos das fortalezas muradas que cercam nossas convicções e novamente nos auto-avaliamos, o que acontece? Sensações de desespero, angústia, medo, náusea, desconforto, melancolia, etc. tudo isto o existencialismo de certa forma se ocupou. Mas apenas abrindo os livros na tentativa de identificar cada vida, cada particularidade íntima, como forma de achar a fórmula secreta para a solução das crises mundanas que nos afetam – existe esta possibilidade? Penso que poderíamos relativizar por um longo tempo. Igualmente, deveríamos ter cuidado com esse “tempo”, pois a cada minuto que passa, os problemas tendem a se alargar, aumentando assim seus efeitos desconsoladores na mente e no corpo.

Uma vida segura ou uma vida de risco? A segurança constante traz consigo o tédio. O risco imutável pode provocar alguma espécie de loucura. Ao mesmo tempo quando reflito, a palavra equilíbrio sempre aparece para concluir todos os questionamentos. Será mesmo que o ponto resolutivo seria uma procura infindável pelo equilíbrio da vida? Atingindo toda a universalidade de questões existenciais? Será que o amor em demasia pode acarretar uma overdose enjoativa de sentimentos pulsantes? Se bem que o amor tem muitas facetas. Não delimito nesse texto o amor enclausurado numa interpretação unicamente sexual.

Alguns filósofos já disseram que o destino do mundo deveria ser entregue a eles. O por quê? Simplesmente pelo fato do filósofo ser a instância crítica, alguém que observa os acontecimentos de fora. Alguém que desprendido de qualquer instituição do mundo, não correrá o risco de viciar seu raciocínio e, por consequência, corromper-se como a maioria de nós. Um ser que deveria principalmente se ocupar em criar uma barreira impenetrável de outros seres com potencial de juízos valorativos. Cuidar para não deixar a política transpor em sua existência. Novamente a pergunta: isto seria realmente possível? Podemos encarar como alternativa a nossos problemas? Bom, sinceramente eu não tenho uma resposta. A complexidade de nosso século não se conclui num texto de coluna de jornal.

Mas deixando as problemáticas aqui apresentadas um pouco de lado, sem definitivamente esquecê-las, porém. Mesmo que os argumentos tenham sido construídos de forma não linear, o que, aliás, sempre costumo fazer – algo que não poderia deixar de mencionar é sobre o filme de François Truffaut chamado Fahrenheit 451. Voltando novamente com o assunto dos bombeiros, temos aqui bombeiros que agora se ocupam única e exclusivamente da missão de queimar literatura. Sim, livros! As casas nesse tempo já são a prova de fogo. Os incêndios praticamente não existem mais. Os bombeiros agora são uma espécie de “polícia política ideológica” que persegue todo e qualquer tipo de livro que seja. A numeração 451 é a temperatura em Graus Fahrenheit que o papel queima. O que é bem sugestivo desde o título, perpassando as imagens aterrorizantes que posteriormente iremos nos defrontar. A película mesmo sendo de 1966, possui um valor que atravessará os séculos como iguaria ao apetite intelectual. Fazia algum tempo que não via um filme realmente provocador.

Neste mundo cruel onde não existem mais livros, a esperança nasce na desesperança. Sim porque em lugares ermos como o interior de vales e bosques, em estações ferroviárias abandonadas e longínquas, respiram seres que sobrevivem em colônias autossustentáveis movidos pela esperança quase apagada de um advento de novos tempos. Esperando pacientemente por outro futuro onde o livro novamente volte a ocupar seu lugar. Neste aparentemente estranho ambiente, os indivíduos decoram cada um – um livro diferente. Algo como: aquele é Pedro – “A República de Platão”. O outro é João – “A Náusea de Sartre”. Quando ficam velhos, pegam o parente mais próximo a fim de transmitir seu livro decorado. Em meio a este contexto, um destes bombeiros exterminador de livros, fará o exercício de autoanalisar-se. A complexidade aumenta sendo que o mesmo está passando por um processo de promoção para o estado-maior da corporação. Sua motivação para a auto-reflexão também partirá de uma linda professora que, perseguida por tentar ensinar a partir de uma metodologia livresca clássica, desperta novamente no bombeiro um amor por si próprio, pelos outros e pelo mundo. O filme é uma adaptação do romance homônimo de Ray Bradbury, publicado pela primeira vez em 1953. Treze anos antes da adaptação cinematográfica proposta por Truffaut. Quem por acaso quiser ler o livro antes, que sinta-se a vontade. O meu papel já foi realizado – o de divulgar o conhecimento, mesmo que de modo singelo.