A greve do sexo em Lisístrata

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Pouco se sabe sobre a vida do dramaturgo grego Aristófanes. De acordo com algumas enciclopédias e manuais de filosofia, pode-se dizer que era considerado cidadão ateniense e que nasceu em torno de 445 a. C em lugar desconhecido; (alguns autores acreditam ter sido provavelmente em Atenas). Dado a escassez de informações pertinentes a sua biografia, por meio de sua obra nota-se sua formação clássica e erudita. Recebeu uma consistente educação filosófica e musical, requisito no processo cognitivo para aqueles que viriam a se tornar autores de peças teatrais. Ao longo de sua vida escreveu e apresentou cerca de quarenta comédias (estilo teatral considerado na época um “gênero menor”, segundo Aristóteles no livro A Poética). Até então, apenas as “tragédias” eram cultuadas pela intelectualidade antiga e premiadas nos festivais e celebrações de honra à divindade de Dionísio. Aristófanes emprega com unidade dramática e enredos espalhafatosos, uma nova forma de traduzir o mundo e, por conseguinte, de fazer arte. Apresenta-se como defensor dos valores democráticos tradicionais gregos, as virtudes cívicas e a solidariedade social. De estilo satírico, critica a guerra e a corrupção na sociedade onde viveu. É considerado um dos grandes símbolos da comédia ancestral.

Dentre sua vasta obra teatral, destaca-se Lisístrata, representada pela primeira vez em um festival de teatro em 411 a. C. Em meio a Guerra do Peloponeso (431 – 404 a. C.), Atenas e Esparta se enfrentam num conflito fratricida movidos principalmente pelo interesse na hegemonia grega. Neste contexto, onde a mulher era vista como mero objeto, desprovida de quaisquer poder político ou de decisão, insurge-se Lisístrata cansada das aflições da guerra. A candidata a líder revolucionária recruta as mulheres atenienses em torno de si para uma missão que irá por fim aos combates e como conseqüência, trazer os maridos de volta para o aconchego de seus lares. Qual seria a estratégia articulada por Lisístrata para alcançar o êxito? Tomar o tesouro da cidade (juntamente com as mulheres engajadas) com a intenção de evitar alimentar a máquina de guerra e suas incursões. Além disso, o grande evento envolveria uma organizada greve de sexo que resultaria no tão sonhado acordo de paz. As mulheres são incitadas por sua mentora a se produzirem esteticamente ao máximo que puderem a fim de despertar nos maridos um desejo pulsante, descontrolado como a erupção eminente de um vulcão adormecido durante décadas.

Ao passo que algumas sentem dificuldades cada vez que chega um esposo para resolver determinada questão, Lisístrata aos poucos vai conquistando sua unidade. Os companheiros ao se depararem com a situação ficam alucinados com a surpresa. Espalha-se uma epidemia de membros enrijecidos que não baixam nem poder decreto. A greve consuma-se.

Os homens ficam a mercê da perda do tesouro e do sexo, ou do sexo e do tesouro (os pecados que movem suas existências). Cada mulher ataca com suas razões pertinentes e assim grandes bate-bocas são instalados. O centro de Atenas transforma-se num palco de reivindicações populares. As mulheres proclamam: “Serão salvos mesmo que não queiram”!

O diálogo das mulheres contra o comissário ateniense é digno de estudo acadêmico. É o grande ápice da revolta interna onde na forma de versos, o desfecho se dará. Lisístrata assume como mandante de uma revolta feminista de cunho pacífico. Assim, posiciona as mulheres e mães contra a guerra e a mortandade e eleva o feminismo na condição de protagonista de uma (nova) realidade.

Diplomacias reatadas. Atenienses e espartanos de mãos dadas. Fartam-se de comida e vão deitar-se com suas amadas. Um caminho resolutivo alternativo, usado como exemplo da união e paz. Um cortejo hipotético onde a linguagem baseada na diversidade de discursos impera. Aristófanes aponta para uma nova era, enxergando através de sua luneta mágica todo o potencial humano suscetível de alcance.

Lisístrata merece ser tratado não apenas como uma mera peça cômica de ficção. Mas como exemplo de esperança, tenacidade e amor. Uma sensibilidade que se desloca de maneira delicada procurando novas significações. Entende o Universo como reduto de relações fraternas transmutadas numa utopia antiga que respira pelas páginas do papel. Dionísio ficaria orgulhoso.