A mulher coiote

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Tenho uma vizinha que anda fazendo-me sistematicamente perder o sono. Não sei seu nome, nem sei precisamente onde fica o seu apartamento, se é no mesmo andar que o meu ou quem sabe no andar de cima. A única coisa que realmente tenho certeza é de que fica próximo, aliás, muito próximo da onde durmo. Até agora, fica um pouco difícil compreender onde quero chegar. Terei que explicar pausadamente por partes.

Primeiramente, num intervalo entre dois ou três dias, minha vizinha desconhecida tem relações amorosas com seu suposto namorado. Até aí é algo aparentemente comum, corriqueiro e natural. A problemática reside quando por volta das três horas da manhã, acordo de solavanco pelos gemidos que ecoam pelo perímetro do prédio, vindo os estrondos sonoros a penetrar pela janela do meu quarto. Atualmente, noto que não levo mais sustos, pois sei que trata-se da materialização do amor entre duas pessoas do sexo oposto. Minha vizinha, e alguém que não me interessa. Quando desperto, ouço apenas o gritar da fêmea, o que neste sentido acho muito melhor, pois dispensaria sobre quaisquer circunstancias ouvir grunhidos de homem me (re) tirando da fantasia do sonho para me (re) colocar na concretude do real.

Dito isto, ao me acordar, levanto e vou batendo nas paredes até o banheiro com a luz desligada. Ao entrar, ligo a luz, urino, tomo um gole d’água gelada e prontamente volto a me deitar. Até pegar no sono novamente, fico de quinze a vinte minutos ouvindo a trilha sonora que volte e meia aparece na calada da noite. Sim, tenho uma vizinha que quando digo que geme alto, estou sendo humildemente modesto. Esta colocação na verdade, está revestida do mais alto desvirtuamento semântico da linguagem. Seria uma etimologia comedida ao referir-me a tão nobres vizinhos, sendo que os uivos mais parecem um coiote das estepes em noite de lua cheia pronta para o acasalamento. Talvez os homens não, mas as mulheres com certeza estão se perguntando sobre minha canalhice ao relatar este fato num espaço público. Porém, como não poderia absorver cognitivamente estes desdobramentos pitorescos a fim de estocar material para escrever? Sei que não soa como resposta favorável ao público feminino, mas ainda sim, acho que devo, mesmo assumindo riscos de natureza gravíssima. Além do mais, tudo isso é ficção, tenham certeza.

Mas continuando, pois principalmente os homens devem estar ouriçados e curiosos, ao ficar refletindo no intervalo entre o acordar e o dormir de novo, tento racionalizar todo este contexto. A primeira pergunta é: as atitudes sob as perspectivas libertária e feminista de minha vizinha são conscientes ou inconscientes? Se for a primeira opção, penso que existe aí duas possibilidades. Uma é o sexo feito de forma tão concentrada, que o “todo” (a universalidade das coisas) torna-se algo supérfluo, longe de eventuais preocupações oriundas de avaliações quanto ao comportamento ser correto ou não. No senso comum, denomina-se isto de “chutar o balde”. Já no meio acadêmico, acho que seria: “atitudes desligadas da realidade do todo”. A outra hipótese é tanto quanto complexa, uma vez que, se minha vizinha faz amor terminantemente consciente do todo que a cerca, no senso comum chama-se isto de “safada”. Já para a intelectualidade científica, também. Afinal, porque ao transar todo o prédio precisa saber que a moradora do apartamento número tal está em plena copulação? Difícil concluir de forma precisa. Se falasse aqui sobre os dizeres em alto volume e o barulho dos tapas entrando em choque com a pele do lugar onde vocês bem sabem, aposto que ficariam de queixo caído. Nocautearia todos os leitores apenas usando como artefato a literatura. Mas esta parte com todo o respeito, prefiro manter sob o mais absoluto sigilo. Por fim, caso a conduta fosse inconsciente, penso que possa haver uma distração passível de avaliação médica, correndo-se o risco de tratamento psiquiátrico.

Contudo, se o ditado popular diz que “todo o gozo é sagrado”, perco toda minha credibilidade, porque seria injusto da minha parte analisar tanto filosoficamente, como psicologicamente todas as nuances do simples ato de transar. Isto é fato inequívoco e incomensurável. Mas as consequências do que anda fazendo semanalmente minha vizinha, acabaram por respingar em mim. Este é o ponto. Quando cheguei do trabalho ontem ao meio-dia, vi uma espécie de carta da imobiliária posta embaixo da porta do meu apartamento. No geral, advertia-me de modo não específico, apenas relatando que ultimamente ando afrontando as regras que envolvem os bons costumes. Daí finalmente entendi com maior exatidão. Primeiro: minha vizinha mora muito perto; segundo: esta carta não é para mim, e sim para ela. Quando me dirigi para a imobiliária com o intuito de advogar em causa própria e afirmar que sou um inquilino que preza pelos bons costumes, ouvi a seguinte manifestação da atendente:

– Pois bem, se não é o senhor, fique tranquilo que a advertência foi remetida para o apartamento errado. Com isto, nem preciso esclarecer-lhe mais nada, pois a acusação de que se trata é ao mesmo tempo engraçada e constrangedora. Prefiro preservar a identidade do locatário. Passar bem e desculpe algum inconveniente.

Acho que a partir daqui, não preciso dizer mais nada. A não ser rezar para o Jornal das Missões não circular em lugares indevidos, como por exemplo, no apartamento de minha vizinha. Afora isto, quase me esquecendo, a funcionária da imobiliária disse-me que iria avisar a síndica para convocar uma reunião e expor o problema. Saí pensando em como seria: “Estamos aqui hoje para dizer que alguém ao transar, anda acordando o prédio inteiro”! Ademais, se fui errado em converter estes acontecimentos em texto, tão errados quanto eu foi quem denunciou minha vizinha, preocupando-se em corrigir um comportamento íntimo e individual. Eu no caso, apenas analisei, enquanto eles querem uma transformação, ou melhor, querem silenciar os uivos de uma mulher moderna, livre e dona de si. Acho que desde ontem, está aberta pelas senhoras aposentadas do meu prédio, a temporada de caça aos coiotes.