A (Noite) do Artista

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O curta metragem “A Noite do Artista”, vencedor na categoria Melhor Direção de Arte na 39° edição do Festival de Cinema de Gramado (2011) é o terceiro curta do diretor Rafael Rodrigues, que neste último trabalho contou com a colaboração da premiada diretora de arte Rita Faustini.

A pequena trama começa com o personagem principal fumando nas arquibancadas do Jockey Club de Porto Alegre, contemplando o vazio em meio aos sons que emanam de uma capital turbulenta – que passa aquém de sua margem perceptiva.

O trabalho enaltece principalmente a arquitetura porto-alegrense, constando como principais pontos as margens do Guaíba, o Cais do Porto, a Avenida Borges de Medeiros, bem como suas escadarias. Cenários clássicos nas produções literárias e cinematográficas gaúchas. A atmosfera noturna reproduz a magia de mistério envolvente – juntamente com a iluminação caramelo, provocado pela palidez da Lua que descarrega suavemente seu brilho em ruas, calçadas, muros e cabeças desesperadas.

Em plena crise de inspiração, o personagem vaga na penumbra da noite, procurando respostas existências que venham com um breve lapso de motivação para finalizar sua obra. Numa de suas andanças, depara-se com dois estranhos sujeitos que fumam seu cigarro, inalam sua fumaça, debocham com risos sórdidos e acabam por carregar o protagonista para o tradicional bar Odeon, onde tudo já estava previamente armado. Neste momento, é demasiadamente clara a correlação do roteiro com a obra “Noite” de Érico Veríssimo, devido à inserção da dupla noturna e suas características alusivas, a típica incursão pelo submundo da cidade e por fim, além do próprio nome, a condição psicológica confusa do protagonista.

Acordes de piano, solos de saxofone, tudo muito alto e pesado em clima jazzístico. Quando de repente aparece uma misteriosa mulher e entrega-lhe uma foto escura, um retrato do próprio personagem, dando a impressão de um momento cristalizado de si mesmo – a figura permanece em sua cabeça. Já em seu ateliê, depreende-se em reproduzi-la através de suas técnicas de artista plástico.

Com uma espécie de pasta escura, sombreando levemente a imagem relevada pela água, o curta de Rafael Rodrigues indiretamente exibe o processo de produção artística com seus ritos manuais. O resultado final é uma foto densa, reportando a imagem de um indivíduo de costas, emparedado pelas escadarias da Borges, trazendo à tona as fantasias que só a noite provoca. O artista intrinsecamente se vê.

O diretor por meio de suas entrevistas comenta que o curta nasceu a partir de um sonho, no qual uma mulher desconhecida o chamava para uma exposição de fotografias. Ao se aproximar, nota que são retratos seus. Dito isto, como fazer cinema no Brasil é um empreendimento desgastante devido aos poucos recursos, todos os envolvidos na produção de A Noite do Artista possuem laços de amizade com o diretor, o que tornou o orçamento mais barato, reduzindo cachês e divulgando obras paralelas dos envolvidos como num jogo de favores. Assim, a trilha sonora composta de arranjos de piano e principalmente as obras confeccionadas pelo ator principal, que na vida real ao lado da referida mulher misteriosa, realmente são artistas plásticos locais.

Destarte, A Noite do Artista apresenta diferentes aspectos existenciais em um curto espaço de tempo. Em torno de onze minutos, refletimos justamente o que será abordado neste espaço nas quintas-feiras – “A vida como ela é”…