Um problema ainda hoje de difícil raciocínio no meio acadêmico, não só inserido particularmente na seara da antropologia, mas que envolve um esforço conjunto das ciências humanas na sua compreensão – sobrevém da tentativa de estabelecer uma denominada fronteira no debate conceitual referente aos temas: “natural” e “cultural”. Tais designações não estão pacificamente equacionadas no tocante as suas naturezas, deste modo, provocando um intenso debate científico movido pela premissa maior de chegar-se a uma dissolução mais clara e objetiva em alusão ao que realmente cada uma representa em si.
Segundo as palavras do antropólogo Edgar de Assis Carvalho, ao mencionar a nebulosa confusão quanto à manipulação dos conceitos, as argumentações mais corriqueiras deliberam a definição de “natural” como sendo o domínio da universalidade, onde tudo é regido e pautado pela universalidade dos instintos. Já no plano cultural, o indivíduo está circundado pela relatividade da regra, do padrão, do comportamento e da diferença.
Toda a situação criada no empreendimento da compreensão absoluta da matéria, encontra como nascente problemática a seguinte questão: o que dá a passagem do “natural” para o “cultural”? É exatamente nesse ponto onde o embate argumentativo se constrói, formando uma gama multifacetada de diferentes teorias e doutrinas. Todas não categoricamente aceitas como arquétipo, mas que contribuem de algum modo para a discussão, fornecendo bases, ideias, caminhos e alguma eventual e necessária referência. Práticas sabidamente comuns na atividade intelectual que submerge e move a pesquisa.
Para Lévi-Strauss (1908-2009), amparado sob o viés antropológico e sua lógica, a referida passagem é marcada pela proibição do incesto, onde o “natural” consegue ultrapassar-se a ele mesmo, preparando assim, o advento de uma nova ordem. Esta, por conseguinte, mais restritiva, limitada e organizacional. Trabalhando com os fundamentos de Lévi-Strauss, é importante entender que não se trata do incesto como prática especial da natureza humana, mas sim, ao ato proibitivo isoladamente. Tendo isto como parâmetro reflexivo, o incesto acaba figurando como componente mediador entre o “natural” e o “cultural”, pois o impedimento universal unânime do mesmo, presente nas mais variadas culturas, automaticamente trás consigo o elemento central da natureza, ou seja, sua essência universal. A partir daí, cada sociedade restringirá o incesto adaptado ao seu modo de formação – sua cultura. Note-se, portanto, a dualidade conceitual inserida no raciocínio de Lévi-Strauss, ao usar como fronteira entre “natural” e “cultural”, a proibição do incesto.
Dito isto, há que se ter um cuidado em forma de precaução ao desenvolver a complexidade do tema, pois como pondera a maioria dos antropólogos, apesar da ideia do universal ser o catalisador da criação do “natural”, ainda assim, a proibição do incesto não se encontra no campo do “natural”, mas continua sendo trabalhado como fronteira – como elemento de passagem. A proibição do incesto é universal sem ser instintiva, no sentido da suposição da voz do sangue estabelecer sua interdição. Mas ao mesmo tempo é universal por existir em todas as culturas, por mais que a universalidade do extinto acabe sofrendo essa transformação.
Quando o pensamento proibitivo do incesto ainda não existia de maneira tão difundida, havia civilizações como, por exemplo, a Melanésia, onde não havia o Édipo. Tal ausência, dava-se simplesmente pelo sistema societário ser regido por um parentesco onde o tio materno detinha o comando da sociabilidade entre os indivíduos, deixando os grupos de pesquisa em antropologia estarrecidos com a descoberta. Os fatos conclusivos são inaugurados logo no início do século XX, ao passo que as ideias de Lévi-Strauss acerca do tema são de 1949, ganhando forma e derivações com o passar dos anos. Atualmente o que se tem é um entendimento de que a cultura deva ser dissolvida na natureza, na intenção de se quebrar o paradigma da dualidade.
Se pensarmos que tudo quanto é proibido, gera em nosso inconsciente o desejo de ser transgredido, como poderíamos objetivar se este mesmo desejo é ou não é instintivo? Novamente o terreno torna-se um grande deserto da mais pura areia movediça, convertendo a instabilidade e a dúvida como os reis de uma ciência não inteiramente revelada.
Teorias difíceis de explicar, resultando em reflexões que pisam em ovos. O mundo persiste em se auto-esconder, colocando-nos num labirinto sem mapa. Assim, percebo a necessidade de dar as mãos ao tempo e a paciência, pois antes de decidir que tipo de automóvel comprar e qual a marca de vestuário adequada, continuo como muitos sem saber quem sou.
O comumente chamando antropocentrismo tem lá suas falhas, aperfeiçoando a personalidade opinativa e enchendo de vida a superficialidade.
Ser humano é ser frágil e mais aceitar do que entender / É saber que a filosofia aplica-se no corpo, e não somente na metafísica do saber.
Assim profetizou o serviçal, assim foi ignorado o poeta. De chapéu de palha, palheiro e bombacha, sua sentença ecoou apenas nos ouvidos dos cavalos. Ao seu chefe, coronel e patrão, o que se ouviu foi: Não passas de um peão! Largue de me olhar e volte à submissão!
Velhos tempos / tempos presentes
Poesia em forma de pasto
Somos dissolvidos entre saliva e dentes
De resto / resta o que é falso.