A sociedade dos bonobos

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 Fazendo um enganche a partir da coluna anterior – dentre os temas comentados naquele momento, aparto como continuidade catalisadora para a confecção do raciocínio no presente texto, a breve menção feita aos macacos bonobos e algumas de suas curiosas práticas comportamentais. Práticas estas, onde se destacam pontos suscetíveis a sérias análises reflexivas.

Não só como mero objeto de estudo da antropologia, mas mais ainda, como componente interrogativo das demais ciências e suas subdivisões, permanece o campo das pesquisas que se debruça no esforço conjunto e sistemático de aprofundar-se com resultados mais claros frente à temática inquietante da natureza dos antropoides superiores (chimpanzés, orangotangos, gibões, gorilas, etc.).

Em meio à quebra de paradigmas antropológicos, Lévi-Strauss (1908-2009) ao teorizar em 1949 sobre o arriscado conceito de universalidade, desenvolveu suas premissas mais precisamente a luz da universalidade do instinto. Tal tentativa, além de carecer de um empenho científico de fluxo contínuo no tocante as sucessivas descobertas que agregam e revolucionam a todo o momento a evolução do sapiens, enfrenta igualmente uma constante oscilação doutrinária por parte dos pesquisadores envolvidos quando se retrocede a ideia de universalidade para o campo dos antropoides, advindo desse paralelo comparativo, toda a fragilidade pregressa do ser humano.

Os chamados macacos bonobos (espécie de chimpanzé de pequeno porte) apresentam características marcantes de sua conduta, tais como: copulação frontal, beijo de língua e masturbação. Segundo o Prof. Edgar de Assis Carvalho, alguns antropólogos já sustentam a existência de uma cultura difundida entre os bonobos, retirando assim a noção de exclusividade desfrutada até então somente pelo sapiens. A complexidade na manipulação dos conceitos atinge diretamente as tênues fronteiras paradigmáticas dentro da cadeia evolutiva.

Poderíamos nos perguntar quando há a efetiva capacidade de operação e, por conseguinte, de transformação do animal sobre a natureza criando de fato sua cultura, ou seja, a possibilidade de transmitir geração após geração essa habilidade de cultivar determinados aspectos. Dentre as discussões antropológicas contemporâneas, além da ideia de uma cultura primata, discute-se também a probabilidade de já haver ética nas relações dos bonobos, uma vez que as observações apontam para um determinado conjunto de regras onde todo o bando relativamente tende a obedecer na “provável” finalidade de um convívio mais harmonioso e equilibrado.

Sabendo ser a cultura um conceito nutrido de centenas de definições, do ponto de vista das ciências humanas, tal conceito é centrado na figura do homem, assim, o que as pesquisas mostram é a crise do antropocentrismo como centro norteador. Talvez não sejamos tão espetaculares como pensamos, havendo um mistério envolvente na proximidade dos bonobos como nossos primos mais próximos.

Uma das curiosidades mais instigantes na sociedade dos bonobos, se é que poderíamos falar em sociedade, deriva de sua inclinação para resolver possíveis e eventuais conflitos sob a ótica da sexualidade. Desordem, busca por alimento, brigas internas por liderança, tudo é desvirtuado para a simulação ou simplesmente para a prática sexual. Os antropólogos inclusive sentem-se impressionados com certas peculiaridades sexuais que se aproximam muito das dos seres humanos. Tem-se criado a ideia metafórica de que o lema dos bonobos é: “faça amor – não faça guerra”. Fora isso, Edgar de Assis Carvalho sustenta que os antropoides já são capazes de operar na linguagem dos sinais, existindo nesse contexto algo além do instintivo ou do puramente natural – uma capacidade de simbolização que até o fim da primeira metade do século XX, era vista como uma competência exclusiva do homem.

Conforme as pesquisas publicadas no American Journal of Primatology, as expressões faciais dos bonobos são facilmente entendidas pelos seres humanos. Os estudos agora se dedicam ao fato de os bonobos emitirem um pequeno som quando estão felizes, o que permite dentro de pouco tempo, afirmar cientificamente se poderiam ou não ser manifestações de riso. A par de toda essa conjuntura comportamental, o filósofo e bioeticista Peter Singer, defende que alguns antropoides devem ter os mesmos direitos dos seres humanos.

Entre as fronteiras do natural e cultural, destino e mutação, o médico e psiquiatra Paulo Gaudêncio profere que o ser humano desligou-se de sua natureza animal, porém ainda não alcançou a plenitude humana, estando ainda numa viagem transitória submergido num oceano de incertezas. As bases teóricas fincadas há mais de sessenta anos por Lévi-Strauss, apesar de ultrapassada em muitos pontos, encontram ressonância por acharmos conveniente não nos libertarmos da ideia da natureza ser a universalidade do instinto. O fato de sermos menos centrados em nós mesmos provoca profundamente nosso ego. Nossa condição humana frágil, animalesca e instintiva, não é aceita na proporção devida, de modo que contribuímos ativamente para ocuparmos um lugar que legitimamente talvez não nos pertencesse. O status social não é mais exclusividade nossa, portanto, mais vantajoso é não negarmos nossa própria natureza, além do que, sermos comparados aos bonobos não é nada incômodo, uma vez que às vezes esquecemo-nos de toda a potencialidade de nossa afetividade. É sempre saudável olharmos para trás a fim de resgatar o que constantemente perdemos.