Apontamentos filosóficos não lineares

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Escrevendo no Jornal das Missões desde setembro como colunista, poucas vezes me reportei diretamente aos leitores que apreciam ou repudiam de alguma forma este espaço. Aproveitando a deixa, saliento como é reconfortante a sensação de bem-estar quando encontramos trabalhadores de todo tipo comentando sobre os textos e seus significados. De minha parte, penso que às vezes, quando há críticas, as mesmas não são direcionadas especialmente para determinados alvos. Além disso, a construção do raciocínio no ato de escrever procura sempre deixar abertas possibilidades para cada leitor condicioná-la de acordo com suas particularidades. Não há intenção de influência ou alinhamento de modos de pensamento. Friedrich Nietzsche (1844-1900) já se pronunciara quando entendia ser conveniente não pensar igualmente como ele, significando ser mais vantajoso cada um refletir por si mesmo – sem reprodução ou continuidade de uma única filosofia uniformizada. Quando se cava um longo canal para formar o decurso de um rio, tem-se ali um movimento singular que acaba por não permitir que essa linha dissolva-se em outros condutos. Da mesma forma é o pensamento quando se procura por um absolutismo da metafísica.

Uma educação desde o nascimento estritamente religiosa, sem espaço para debater frente aos dogmas estabelecidos, corre o risco de provocar depois do amadurecimento mental do indivíduo, rememorações da infância que trazem certo desconforto psicológico. Imaginem uma criança sendo educada numa instituição de ensino religiosa autocrática. Passada a inocência da puerícia, ao olhar para trás, as lembranças surgem paralisantes no presente. Há que se ter um cuidado em relação ao contexto, circunstâncias e determinadas peculiaridades das questões aqui levantadas. Poderíamos supor em meio à quebra de paradigmas, que certas práticas abomináveis se perderam com o passar dos séculos. Porém, o mundo hoje é muito maior do que possamos compreender dentro de nossa existência restringida somente pelo lugar onde vivemos. Talvez ainda haja realidades em que o tradicionalismo metódico impera como prática incondicional na sucessão dos dias.

Penso em Martinho Lutero (1483-1546), que lecionando Teologia na Universidade de Wittenberg, foi duramente questionado em relação a sua metodologia insurrecta – em razão de desenvolver uma nova forma de conduzir os ideais da Igreja. Ao ser impugnado em relação à insatisfação de Roma e a possível perda de sua Cátedra, respondeu seguro de si: – aquele que dá a flauta, também dá o tom?

Diariamente continuo rememorando a solidão de Arthur Schopenhauer (1788-1860), quando melancólico pela deserção dos estudantes de sua aula devido à popularidade dos seminários de Hegel (1770-1831), decidiu por isolar-se completamente do convívio entre os seres humanos. Escolheu unicamente a companhia dos cachorros, que segundo ele, expõe suas vontades desprovidas das máscaras da dissimulação. Chamado de louco – estava criado à atmosfera de segurança comportamental instintiva imaginada pelo filósofo e não descoberta por si no seio da sociedade.

O mundo às vezes parece servir como ninho para o aquecimento de nossa megalomania. Nossos príncipes inflam nossas paixões e posteriormente nos conduzem à guerra. Arqueiros disparando flechas para o céu formando uma chuva de dor lacrimejante. Não possuímos mais defesa contra a máquina de propaganda política. Observamos o país elevar malditos em ricos cheios de progresso. A ditadura militar agiu sabiamente em pró da consolidação e manutenção de seu regime. Para poder assentar-se no domínio, além de promover perseguições em massa, fechou as portas dos cursos de filosofia. Saber é poder! Lacrem os centros de incitação ao pensamento! A paixão volta e meia está no banco dos réus, revezando a partir de uma ciranda democrática, com a corrupção e o assassinato. Poderíamos dizer sem medo que a corrupção na política brasileira já é a banalização do mal de Hannah Arendt (1906-1975). Conversando pausadamente com o Padre Rogério, pensamos sobre a possibilidade dos índios nativos brasileiros, caso tivessem a habilidade da escrita, terem relatado sob sua ótica imaculada, a chegada das primeiras caravanas portuguesas em nosso litoral. Uma alternativa conspiratória da história os europeus diriam.

Como é silencioso o fundo do meu mar. Todo o mar em particular procura por silêncio. A solidão traz consigo concentração e conexão com o EU interior. Talvez seja a atmosfera pedinte de luz, de iluminação – uma graça remanescente que clareia um caminho cercado por espinhos nas laterais e pedras rochosas pela frente. Como diria Zaratustra: – grande astro! Que seria de tua felicidade se te faltassem aqueles a quem iluminas? Terra de ninguém! Há de haver esperança além do desabrochar de adolescentes e primaveras. Uma energia extra que catalisaria a bondade humana relegada a segundo plano. Prazeroso é o olhar por detrás das cortinas d’água das cascatas e cachoeiras. Sentados em rochas prolixas – declinamos na ilusão de mero divertimento. Muito mais que isso, há um espelho de fundo natural – onde se vislumbra o olho da natureza e seus enigmas. A sensação viva de ir adiante como uma corda dada ao corpo. Quando Nietzsche disse que Deus é uma conjectura, os intelectuais interpretaram sua filosofia como a negação total da divindade. A crítica recaía mais em relação à construção filosófica das religiões em geral do que propriamente uma pregação fria do ateísmo. Nessa linha, o ateísmo marxista do Leste Europeu acabou por empobrecer culturalmente suas nações – monoteísmos e economia planificada. Um tentáculo de sonho descrédito na prática. Como disse Nietzsche: não existem fatos, apenas interpretações! Assim, as interpretações estão na vontade inicial do povo? Na lei já construída (dessa vontade), ou quem sabe nas individualidades dos operadores do Direito? Talvez uma não exclua a outra, havendo um processo sucessório dentro dessa fenomenologia. Não há calculadora para as Ciências Humanas, apenas paciência e delicadeza em seu manejo.

Paulo Rudi Schneider, filósofo professor da Unijuí, em sua palestra de quinta-feira (última) na URI – Campus Santo Ângelo, dissertou dentre tantas coisas, sobre a dependência e preguiça humana, no sentido constante da espera por líderes políticos, padres, gurus e outros eventuais condutores em potencial que ditem o caminho a ser seguido. O que seria certo ou errado da melhor forma possível. As veias críticas estão obstruídas pela gordura do sedentarismo cerebral. Somos cidadãos pobres de espírito. Se não há discernimento, tampouco haverá construção. Sugestões que representem pequenas pedras brutas num projeto de constituição de um vultoso muro firmado em bases democráticas. Do jeito que vai, parecemos uma manada de gnus correndo contra as intempéries não do tempo, mas da vida. Arrastamos pelos pastos nossa ignorância salivante e cega. A natureza vista apenas como mero objeto, manifesta todo nosso instinto animalesco irracional. O sinal da proximidade dos seres humanos com nossos ancestrais. A perda da cauda, o desentortar da coluna e a fala articulada. Os macacos bonobos masturbam-se freneticamente como forma de descarga de estresse – desvirtuando os conflitos em potenciais de liderança, por manifestações de outra natureza. Beijos de língua e felizes para sempre. Um longo caminho foi percorrido, sem criacionismos e evolucionismos em questão, somente um exemplo tirado da Antropologia.

Por fim, meus argumentos são apenas pequenos lembretes jogados separadamente aos ventos nortes. As colocações são depositadas nos quatro cantos depois de esvoaçarem-se com toda sua plenitude. Um surrealismo com sua toda força. O sopro celestial do vento torna sempre tudo tão não linear. É como acordar de um sonho interessante sem lembrar-se de sua ordem cronológica, restando apenas uma sensação de vazio e frescor. Não um vazio total, mas faltando as peças que a brisa levou e jogou em algum lugar.