As dores do mundo

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Enquanto a água ferve para o cozimento do vindouro espaguete, fica a mente desunida a sonhar solitária. Os instintos são soltos numa ronda noturna apenas nos cômodos do apartamento. Abro a janela para alçar vôos maiores. Uma ilusão humana da autonomia do ser. As rezas já perderam suas forças e de longe não respondem as questões preliminares. Mantendo a televisão até segunda ordem desligada, não há nada de novo a não ser violência e casos policiais. A ciência deitou na rede para descansar. Crise da filosofia – convulsão da hermenêutica jurídica. As críticas recaem na dicotomia criada entre os intelectuais de que não há mais naturalismo e positivismo. Tampouco há maiores problemas em aplicar a lei rigorosamente conforme disposta em seu texto. Os guardiões da legislação. Uma salva de palmas! Os bacharéis se não advogam, ficam presos sem a requisitada docência. Aí se pensa: bom, porque não cursei licenciatura? Tarde demais! – Nunca diga nunca profetizou o trabalhador! O trem jamais para, o que acontece durante todo o tempo é somente a mudança de maquinista. Os condutores que nunca deixam a corrupção perecer. Às vezes a pegam agonizando e novamente a revivem. Patriotas voluntários das demandas. Lideramos missões de paz internacionais e nossa educação afunda vertiginosamente. Os professores das escolas têm trabalho, mas não tem renda. Como diz Mario Sergio Cortella: “Emprego é fonte de renda – trabalho é fonte de vida”. Às vezes muito trabalho, porém sem emprego. Ou às vezes um belo inescrupuloso emprego, mas sem a fonte vital de energia. Tudo produto do capital desacompanhado. Alimentou-se um monstro que se nutre de juros e correções.

Não se pode refletir ou objurgar. Na ofensa somos vagabundos, nos elogios somos no máximo anarquistas. A rebeldia é rótulo de quem se diferencia. Quando nascemos, já existe uma estrutura de regras invisíveis que nos condicionam a obedecê-las terminantemente para usufruirmos de nossa inserção social. Depois quando nos decepcionamos, a psicologia nos espera de braços abertos. Se o caso não tem a dita cura, sobe-se uma instância e vamos de encontro direto com a psiquiatria e suas químicas do veneno. Alguns terceirizam sua fé e buscam através de centenas de religiões acharem o caminho da felicidade. A crença transforma-se em trampolim para poder chegar a deus. Uma longa jornada por uma estrada corroída e esburacada. Percorremos uma trilha sem iluminação infestada de pedágios religiosos. Caros pedágios impostos aos pecadores para fazerem as pazes com deus. Caso a vontade de representação seja a ligação direta – eu e deus, aí não há legitimidade. A igreja se intitulou mediadora divina dos mortais. Ou você é ateu, ou agnóstico, ou novamente insurgente. É como um poeta que escreve sobre amor sem nunca ter amado. Quanta confusão, os padres cerceiam seu livre arbítrio. O mundo como um todo é um grande círculo de hipocrisia e mentira. Um charmoso baile de máscaras dos polpudos anos vinte. Todos se conhecem ao mesmo tempo em que não se identificam. A geração perdida sempre está em voga.

As novelas dão o tom da valsa que a rotina pede. Reunião de famílias ou somente de casais. Liturgias aprovadas em massa. Programas que literalmente entortam a mentalidade do indivíduo. Viram-no do avesso e o largam tonto a perambular pelas ruas. Reproduzem diálogos incandescentes por banalidades. Em certas ocasiões a morte aparece e dá seu bote. Uma ignorância espalhada no corpo como vacina de início de estação. Somos todos dia a dia enganados e manipulados. Sua atenção é impetrada desonestamente. Os livros ficam à mercê da desvalorização na pós-modernidade individualista, líquida e superficial. Uma fruta de casca mole podre por dentro. Abichada de seres medianos. A indústria novelesca percorre em passos largos sua trágica evolução. Nosso cinema agoniza na tentativa de salvação. Um filme – dezenas de patrocinadores. A produção da cultura independente é sinônima de esforço e suor derramado.

Tenho perdido a confiança nos seres que rotineiramente me chutam para as margens da sociedade. Não gozamos da vida pelo talento, apenas aproveitamos as indicações e assim vendemos uma capacidade simplesmente articulada e fantasmagórica. Os cochichos sendo todos depositados nos grupos intelectuais já fechados. Os cães adquirem um valor de companheirismo e lealdade inevitáveis. Entendo impecavelmente as escolhas de Schopenhauer (1788-1860). Individualismo e egoísmo – felicidade e amor. A religião macabra mastigou-os e depois cuspiu um emaranhado de conceitos. Adentramos nos templos místicos e logo no primeiro passo contemplativo todo o clorofórmio beatificado é nos oferecido em forma de água benta. As cidades são campos minados sem cercas de aviso. O prélio é invisível e sem fim. Quando o holocausto psicológico finalmente chegar, faltarão máscaras de oxigênio e o desespero reinará triunfante nas escadarias da misericórdia.

Muitas pessoas afirmam que não entendem o que eu digo. Isto para mim é como resposta. O objetivo virou verdade enquanto o subjetivismo foi domado pela preguiça. A filosofia chinesa assim sabiamente profetizou. Se cada leitor compreende um texto de forma diferente, automaticamente as palavras viram lixo. É o receio do desconhecido. Somente a igreja detém a fórmula de manipular o medo e ainda assim ser bem quista. De resto, somos apenas anarquistas vagabundos despejando sequências de bobagens para o céu apático que nada responde. Deus não é esquecido por um só momento. Ninguém ousa aceitar sua morte. A ideia do castigo já está plantada no inconsciente.
O meu recado é simplesmente esvaziar as missas de domingo e concentrarmo-nos nos afazeres dos dias da semana. Quantos engravatados disseminam o pecado e entram nas igrejas para descarregar seus lamentos. Começamos caros fieis a inverter urgentemente a lógica da existência desvirando do avesso o mundo profanado pelos donos do poder. Cortem as doações e os dízimos, cessem as orações, ou logo logo estaremos de quatro pastando como um grande rebanho sem lã aos comandos de pastores reluzentes a ouro.
O Papa renunciou, já é um começo!