As facetas de Heitor Dhalia: Parte Final

0
111

Continuando pelo mundo multifacetado do “quase mestre” Heitor Dhalia, que após o sucesso alternativo de “O Cheiro do Ralo” (2006), aclamado até agora como seu melhor trabalho – seu próximo longa produzido pela O2 Filmes, viria a se chamar “À Deriva” (2009), só que dessa vez, encabeçado por um ator estrangeiro, de nome Vincent Cassel. Sim, o próprio! O astro francês de “Irreversível” (2001) do diretor argentino Gaspar Noé, voou direto para Búzios no Rio de Janeiro misturar-se com os demais atores brasileiros que participam do filme. Menção à Débora Bloch, que interpreta sua esposa atraiçoada. Apesar de apresentar um Vincent Cassel desconhecido do grande público, surpreendendo com sua atuação na pele de um pai de família atencioso e gentil, falando fluentemente português e inserido numa trama um tanto quanto simples, o trabalho ganhou o prêmio de melhor fotografia no Festival de Cinema de Havana em 2009, além de ser selecionado na 62ª edição do Festival de Cannes, concorrendo na mostra paralela chamada “Um Certo Olhar”, que compõe dentre outras, uma das seções competitivas oficiais do tradicional festival.

Posteriormente ao drama familiar de “À Deriva”, que não deixa de ser um bom filme, porém atrás de “O Cheiro do Ralo” e ‘Nina’, nesta ordem – a experiência subsequente de Heitor Dhalia, lançada no Brasil este ano sob o título “12 Horas” (Gone) é seu primeiro projeto feito em Hollywood e estrelado pela atriz Amanda Seyfried (Alpha Dog – Veronica Mars). O suspense norte-americano de Dhalia, apesar de ser uma produção de grandes quantias, é com certeza seu filme mais modesto. Ninguém precisa acreditar ou criticar previamente, basta assistir sua filmografia em ordem cronológica e constatar um certo declínio depois de “O Cheiro do Ralo” e seu posterior envolvimento em produções estrangeiras.

O importante de comentar acerca de “12 Horas” não é a história do longa em si, mas sim, as diferenças de se fazer cinema de cunho autoral (pelo qual o diretor é livre para maximizar seus elementos estéticos próprios) como é feito na maioria das vezes no Brasil, em contraste com a submissão imposta pela indústria cinematográfica hollywoodiana, onde o diretor é representado apenas como uma peça técnica, numa hierarquia estabelecida exclusivamente pelo poder financeiro. Nesse caso, o mando é quase sempre do produtor “filmmaker”, salvo raras exceções de cineastas mundialmente consagrados, que podem desfrutar de total autonomia criativa. Na divulgação de “12 Horas” no Brasil, transcrevo nas palavras do próprio Dhalia (em entrevista para o G1) como foi o enfrentamento destas diferenças: “Los Angeles é um grande Cassino, uma grande bolsa de valores de especulação, envolvendo através de um complexo sistema, um preocupante risco na fase de produção – eu estava muito a fim de ter essa experiência há um tempo, queria entender como a indústria funcionava, entender as vantagens e as limitações, os conflitos que vêm a partir daí”. Contextualizando, o que mais me impressionou foi a proibição feita à Dhalia pelo produtor em conversar em particular com quaisquer dos atores, somente na presença do todo poderoso – até eventuais ensaios ficaram terminantemente proibidos.

Considerando as subdivisões na equipe, Dhalia claramente ocupou um lugar ofuscado pelo indivíduo que entrou com o financiamento, retirando assim seu controle efetivo sobre o set e, por conseguinte, alguma ocasional decisão final. O que restou a Dhalia foi apenas um rígido contrato de cláusula única: “Obedeça sempre meu dinheiro”. Acreditem meus leitores, quase tudo produzido em Hollywood é tratado como mais um produto com potencial de lucro.

Na próxima quinta, motivado por um amigável e-mail, redijo uma resenha crítica de um filme que recomendo, chama-se Eraserhead (1977), dirigido pelo mestre, esse sim já conquistou a alcunha, David Lynch.