As Facetas de Heitor Dhalia: Parte I

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Aqui vai uma preciosa dica para os apreciadores de cinema: a coluna de hoje é dedicada à produção do cineasta pernambucano Heitor Dhalia e sua obra de estreia, o longa-metragem Nina, lançado no ano de 2004. Apesar de possuir uma filmografia ainda pequena, o talento de Heitor Dhalia já é reconhecido pela crítica especializada, concebido pela mesma entre os expoentes da nova safra de diretores que merecem o acompanhamento não só da mídia, mas principalmente do grande público, que é o instrumento financiador da indústria cinematográfica. Sem público não há cinema, como muitas outras coisas. Isso, porém, todo mundo já sabe. Como dito, o curto currículo de Dhalia não condiz com a variação de temáticas expressivas abordadas nos seus projetos.

Seu primeiro trabalho foi lançado em 1988 com o curta-metragem de suspense “A Pantomima da Morte”. Entretanto após radicar-se em São Paulo em 1993, mudou seu foco laboral passando a trabalhar como redator publicitário em diferentes agências de propaganda, o que veio acarretar consequentemente na produção de dezenas de informes publicitários. Neste lapso de tempo dedicado à publicidade e propaganda, regressou ao cinema somente onze anos depois, em 1999. Neste ano, colaborou como assistente de Aluísio Abranches no longa-metragem “Um Copo de Cólera”, baseado no livro de Raduan Nassar, além de lançar seu segundo curta chamado “Conceição”. Em 2002, novamente contribuiu com Abranches no filme “As Três Marias”, dessa vez atuando como co-roteirista.

Somente em 2004 é que Heitor Dhalia viria a estrear como diretor titular ao produzir Nina – livremente inspirado no clássico “Crime e Castigo” de Fiodór Dostoiévski. O longa é protagonizado por Guta Stresser, atriz que interpreta Bebel Carrara no programa “A Grande Família’ da Rede Globo e que dá vida a Nina, personagem relacionada à Raskólnikov, que por meio de sua angústia existencial em realizar algo importante, possui a seguinte teoria sobre os seres humanos. [Os indivíduos se dividem em duas categorias: os ordinários e os extraordinários. Os ordinários são pessoas corretas, que vivem na obediência e gostam de ser obedientes. Já os extraordinários, são os que criam alguma coisa nova, todos os que infligem à velha lei, os destruidores. Os primeiros conservam o mundo como ele é. Os outros movem o mundo por um objetivo, mesmo que para isso, tenham que cometer um crime]. A partir desse preceito, a trama envolve a quebra dos velhos paradigmas societários em pró do avanço humano, girando em torno da busca da salvação através do sofrimento. Os questionamentos adversos surgem no subconsciente de Nina enquanto tenta resistir ao sofrimento causado pela diabólica Dona Eulália, velha decrépita que simboliza a humilhação do semelhante em meio a uma sociedade de relações hostis impiedosa e decadente. Todavia, quando uma morte ou assassinato acontece, os transtornos psicológicos explorados por Dostoievski em sua obra, são sequestrados por Dhalia e trazidos décadas depois em Nina, consumando um filme brasileiro essencial de assistir. O filme conta ainda com os traços em preto e branco feitos pelo premiado cartunista e escritor Lourenço Mutarelli, que depois iria ver seu livro “O Cheiro do Ralo” ser adaptado pelo mesmo Dhalia, sendo posteriormente lançado dois anos depois (2006), tornando-se desde então, seu filme mais comercial.

A concepção de indivíduo extraordinário já pode ser exercitada pelos caros leitores desde já. O primeiro passo é o abandono da Nina de Avenida Brasil pela Nina de Dostoiévski – um avanço incomensurável em prol de nós mesmos.