Bixo de uma cabeça (a dor não escolhe hospedeiro)

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Aquele que descreve a melancolia está condenado a um fim fatídico
Confinado num purgatório de arames farpados
Onde a mãe não visita, onde os fracos não têm vez
Somos stalkers guiando nós mesmos
Aqui a grama é seca e a terra vermelha
Do chão brotam apenas cactos vultosos e espinhentos
Só pedras, calor e descompaixão
A seca devastou nossas flores
Há um quebra-mar imaginário emitindo tão somente seu som
Ninguém irá me buscar?
Eu sou o que não quero ser
Minha própria negação
Onde os manicômios estão cheios
Faltam lugares, falta ainda meu lugar
Os portões se fecham trancando a loucura
A medicação começa a ser dada antecedendo o silêncio
Mas porque colocaram-me aqui?
Sente-se bem no seu recanto?
Quando falo me esqueço e acordo logo depois
Fumo dezenas de cigarros num pátio cinza e acimentado
Alguém me jogou aqui
Minha mãe ainda não apareceu
Enquanto isso, imagino sorrisos e abraços
Sem fazer nenhuma força, vou despedindo-me
Ninguém chora – absolutamente ninguém
E num sol que ilumina tão pouco
A morte acidentalmente é minha amiga
Família, dor, escuro, sufoco,
Alguém pode me tirar daqui?

“Chegará um dia, em que a filosofia dos homens tomará o lugar das químicas laboratoriais dos remédios manipulados”.

*Poema dedicado a Ricardo Carpes Mazzuco (Choco), amigo diagnosticado com distúrbio bipolar, internado as pressas no calabouço dos desgraçados. Um lugar somente para esquecer.