Cegueira Esvoaçante

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Já vi o Sol brilhar e depois se esconder. Apreendi então que na verdade ele iria cintilar em outro lugar.

Em troca veio à Lua e disse: “oi, aqui estamos de novo”.

Perguntei-me quando a felicidade é real, e sabia que tal questão por ora é muito difícil.

Se perguntasse a Lua, ela com certeza iria pensar: “é só olhar e ver, simplesmente olhar e ver”.

Eu mesmo sentia-me idiota naquele momento e, portanto, não sabia guiar lucidamente meu pensamento. Estava confuso e nesse instante, meditei sobre algo que pairava no ar como um pequeno lembrete.

Toda vez que cruzo pela frente de sua casa, vejo-o sentado ou com seu surrado andador. Ele possui um câncer maligno e provavelmente o tumor esta instalado em seu cérebro. Sua aparência é debilitada pela doença e sua luta parece ser já de algum tempo.

“Pobre homem novo”, penso.

Ao passar, sempre o encaro para comprovar que todo santo dia ele injeta um bocado de esperança em sua face magra, enquanto observa calmamente o movimento rotineiro das pessoas. Quanto o tédio arregimenta, caminha até a esquina – ficando a contemplar ao lado de uma parada de ônibus, os moradores que chegam do trabalho e os estudantes que vão e voltam de suas escolas.

Sempre o cumprimento perguntando se está tudo bem naquele dia. E ele sempre me responde que sim, abrindo um vasto sorriso que enche inclusive a mim de energia, inquietando-me novamente quando a felicidade é definitivamente real.

Boto-me no seu lugar e reflito que seus anseios acreditam que tudo seja bom enquanto dure. Talvez ele vislumbre até que ponto seu corpo consegue chegar.

Ao avistá-lo de longe, já percebo sua postura como quem olhando a vida de outra maneira, ao largo de quem passa.

Ele tem um sonho. Sim, ele teve um sonho.

Ele espera um olhar de vida, um cumprimento ávido de esperança. Cotidianamente precisando de algo doce e leve, que inclusive não custa caro.

Sei que até onde posso pensar, a felicidade está na boca do peixe. E a Lua continua lá, clara e paralisante em sua forma, respondendo para todos que o necessário está aqui para se colher. Plantar e colher.

Não deixe que os humanos o cerquem e o chaveiem dentro de si próprio.

As doenças não podem afastar ninguém de ninguém.

A atenção ele pensa, é o remédio, a vacina contra o tempo.

Até a Lua quando recebe sua atenção diária, respinga coisas sobre nós.

Eu me sinto feliz agora e sei que sozinho, posso compreender que meu amigo possui a fórmula secreta.

Nesse exato momento eu reparo na fusão de corpos e tudo tem sentido no labirinto humano.

Que até mesmo no fim dos dias pode-se superar tudo.

A felicidade surge e torna-se real, quando devidamente compartilhada.

Acho que meu vizinho desde sempre pensava assim, já quanto a mim, só percebi quando notei sua falta no vazio daquela esquina.