Discurso pessimista do mudo para o surdo

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Alguns dizem que o lixo é algo entre o objeto e a matéria. Quanta maestria no exercício da problematização poética. Fechando os olhos, vem à luz o candelabro mediévico de um dourado enfraquecido pelo tempo. Fosco. Ignorado pelas vestes do presente e sua clareza condicionada. Crítica dependente. As teias de aranha enriquecem a rítmica nonsense. Uma tonalidade variante de cinza projetado na retina do ser humano. Lucidez em pequenos lapsos cerebrais. O piano a muito não tocado, decora classicamente o ambiente antigo. Longas cortinas bordô. O mofo transforma a cor em abstração. As velas romantizam o drama e fervem as veias pulsantes de instintos sufocados. Braços longos para fora da cela clamando por fugas de amor. Os corredores ecoam toda a volúpia de lamúrias daqueles enrijecidos.

Não tenho condições mentais de franquear as desilusões. As dimensões exageradas dos problemas sociais. A arte sendo composta até com lixo, é arte suscetível de aceitação, apreciação e investimento. É solução invisível para os surtados em labirintos políticos. Cegos na especificidade embrionária. O dinheiro flutuante na imaginação é representado no tato em notas de papel. Sua força é tão grande que faz a Terra girar em volto do manto capital do Sol. Não sei por que ainda existe o termo favela. São cidades dentro de cidades. Culturas diferentes num espaço cosmopolita. O certo e o errado invertendo suas lógicas. Grandes comunidades. Grandes circos. As mudanças são confundidas com evoluções. Há uma diferença para quem é míope. Acho que as pessoas que cruzam por você ressonando um barulho de moedas no bolso são indivíduos de grande valor. São potenciais se perdendo a cada dia. Já outros seres são presenças marcantes nos espaços sociais. Presidentes de comissões e entidades para alguma coisa. As repetições de seus nomes causam um desconforto existencial que eles nem concebem em seus íntimos. Sinto náuseas ao chegar aos hospitais e sentir na pele a ausência de calor humano. Brutalidade em atos hostis. Se nem mais as UTIs estão seguras, nossa autossuficiência comportamental fracassou. Posso reclamar como um sádico até as velas derreterem o tempo da luz. Não mais me reconhecerei. Apenas ouvirei minha própria voz anasalada. Não entendo o comercialismo das funerárias. Como conseguiram transformar até isso em indústria? Caixões hoje são escolhidos a dedo. Teremos que investir até na hora de nossa morte? Atualmente até planos de aplicações financeiras em futuros enterros já existem. Antecipando assim as surpresas e preocupações porvindouras dos que ficam. Ficam a viver ou ficam a sofrer? Uma mescla ingrata. A água também surge com suas cobranças. Tudo está ficando caro. Caríssimo. Minha queda de cabelo se dá principalmente pelo preço estipulado para viver. Permanece ainda o ar sem ser cobrado e planificado em correções anuais. A gasolina então nem se fala. Será mesmo que sou um chorão machucado por dentro egoísta em todos os sentidos? Pelo menos bato boca em forma de tinta e papel. Se caso alugo seus ouvidos, aí tudo depende do ponto de vista. Aconselho que passem meu espaço como algo vazio e branco. Fechem os olhos e paguem seus impostos. Viajem quilômetros procurando em família por preços mais baratos. Contamos nos dedos as livrarias existentes nas cidades do interior. Quando resolvo viajar de ônibus, sou refém das fusões das empresas de transporte que se coroam donas de determinados trechos. Locomovo-me limitadamente. O horário da passagem não confere com a boa vontade dos motoristas. Se por ventura me sentir lesado, ouço como resposta: – podes também ir de táxi! Ninguém o obriga a viajar neste ônibus! Ria, ria muito para espantar a loucura. Os moradores de rua formariam grandes centros urbanos. Brasília concentra uma taxa de mendigos digna da sublime atenção dos trancafiados em palácios refrigerados. Poder, poder e poder. Quanto contraste. Quanta variação de condições humanas a margem de tudo. Marco Feliciano conduz os Direitos Humanos do Brasil? Por favor, teóricos irmãos, escrevam insensatamente sobre a distribuição das representações políticas. Não abram mão de suas naturezas charruas. Parem com os intercâmbios para a Europa e dialoguem para a interação nas aldeias indígenas. Eu quero concorrer neste edital. Quero os chás e ervas nativas da minha terra. Quero danças sob as fogueiras dos ritos. Quero seios ao vento como sempre foi na concepção da humanidade. Quero ordem. Esqueçam-se do progresso se nem mesmo o primeiro conseguem alcançar. Cansei dos números de mortes por latrocínios, crimes passionais, acidentes de trânsito e por todo tipo de violência banal ou justificada. Quero arrastar minha onda de pessimismo para algum vale encantado. Subir em árvores e calcular a chegada das tempestades. Nadar nu com toda minha família. A maldade sempre esteve nos olhos de quem vê. Tudo é levado ao pé da letra. A legislação do interesse cedo ou tarde irá me impetrar. Não nos esqueçamos dos presídios particulares onde prender virou negócio. Mantém a manutenção das instalações. As missas da semana da Páscoa lotadas enquanto centenas de crianças não chupam um pirulito doce. Até as igrejas andam virando desfile de moda. Palco de fofocas e olhares curiosos. Os fiéis não são mais os mesmos. As ovelhas desgarradas e perdidas são fisgadas por religiões que gritam suas necessidades. Como é fácil falar. Reclamar então mais ainda. Olhem como faço bem. Apreciem as indagações. Aposto que ninguém coloca a mão na massa tão cedo.

As velas finas voltam a derreter e sua luminosidade enfraquece ao ritmo do empobrecimento gradual do espírito. Esqueçam tudo que escrevi e vivam suas vidas. Um dia compreenderão o quão vil é nossa passagem terrena.

Até a próxima semana, se a Coréia do Norte assim permitir.