Feliz Ano Novo aos Lobos e Coiotes

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Somente com as esperanças nas luzes do abajur, olhando desolado pela janela daquele velho quarto de hotel, está Carlos prostrado enquanto todo aquele trânsito trafega de ambos os lados bem na sua frente. Pela altura, observa apenas os fachos dos faróis irem e virem em meio à avenida principal. As vozes, gritos, chamados e buzinas, ecoam até a janela de Carlos, trazendo-lhe a vida que pulsa fora de seu limitado mundo. “Devo estar numa espelunca tombada” – [pensa]. Assim, Carlos dá meia-volta e com um rápido movimento serve-se de sua cachaça da braba. Goles curtos e secos. Sem firulas. Sem rótulos. Um galo fino. Naquele bidê decrépito era apenas o abajur, uma garrafa da branca e um copo. Por fim, concluindo a decoração, restava seu terno surrado pelo tempo com suas marcas de suor. Deixado de lado na cadeira, o mesmo já perdia os contornos no corpo do beberrão. Magreza, sofrimento e questionamentos futurísticos emanavam de Carlos junto com a fumaça amarelada de seus cigarros paraguaios.

Com as batidas na porta, Carlos salta da cama e ao abrir, vê Antônia sorrir e espontaneamente abraça-lo.

– Meu amigo, como que tu estás?

Carlos andava mal, jamais imaginou atravessar aquela crise na sua idade. Não que ele fosse velho, porém necessitava de cuidados já que levava uma vida desregrada.

– Entra de uma vez que esse longo corredor cercado por portas é, mormente perigoso!

Antônia movimentava-se no limite de suas dobras. Uma gordura realçada num jeans apertadíssimo. Maquiagem barata, batom vinho e como surpresa: escondia uma lingerie preta comprada na promoção do mesmo dia. Vai logo batendo os tamancos em direção ao bidê, senta na cama, serve-se uma dose e encosta-se. Nisso, Carlos tira as calças do pijama e deita ao lado de sua paixão artificial.

Aquele clássico hotel de no mínimo cinquenta anos, apresentava seus ruídos em cada passo no assoalho de madeira corroído. Banheiros coletivos, pó e sujeira acumulada de muitos indivíduos sôfregos e mosquitos de diferentes tamanhos para embalar em zunidos noites de amor. Como atrativo, apenas o barulho da chuva batendo no zinco, criando assim, uma trilha antiga acompanhada dos rádios que não cessavam – espalhando suas ondas e frequências por debaixo das portas, cruzando os corredores e confundindo-se com a orquestra de barulhos do centro da cidade.

Carlos percebe sua existência diluir-se como um punhado de areia na palma da mão. Ao sopro do mais natural vento, perdem-se pequenos e constantes fragmentos. Antônia está ali como alguém que representa muitos. Mulher passada dos quarenta, porém ainda longe dos sessenta. Deposita toda sua energia nos encontros amorosos com os antigos companheiros. Que são muitos, lá se vai anos e mais anos de tragos e conversas jogadas fora. Tudo tratado como esporte, como filosofia de uma vida errante.

A cada gole, um lamento. Uma lágrima engolida que enche um grande jarro interior. Carlos conta sua peregrinação por todo o estado a fim de comercializar sua pirataria. Antônia relata casos grotescos, de sexo com bolivianos, paraguaios e hora ou outra, com algum africano aportado clandestinamente no porto de Rio Grande. Tentou contabilizar seus pares, porém foi infeliz. Devo ter passado de 300! [profere].

As famílias estão longe, perdidas e esquecidas. Relações frias e sem sentido. Já não se tem mais notícias há muito tempo. Naquele quarto esquecidos e vulneráveis, estão dois exemplos de brasileiros deslocados pelos desdobramentos de decisões precipitadas.

Antônia vai bebendo e logo sua mágoa transforma-se mais uma vez em sonhos, enquanto Carlos afunda-se cada vez mais num poço de melancolia. Não possuíam um só projeto, não construíram um legado sequer. Tomados pelo clima de silêncio alcoólico, seus corpos aproximam-se e devoram-se. Gemidos perdendo-se pela janela até chegar aos céus. Suas sombras provocam um espetáculo de som e luz. Magreza e gordura acumulada. Os reflexos lentos atormentavam em pequenos lapsos o dia de amanhã.
Ao amanhecer, o cheiro de perdição inebriava o ambiente como colônia afrodisíaca. Peças íntimas GG espalhadas pelo chão como troféu de uma noite esplendorosa. Carlos levanta e sente sua cabeça pesar, dando a nítida impressão de trazer consigo meia dúzia de tijolos amarrados no pescoço. Caminha com dificuldade enquanto ouve o ronco da grande besta humana deitada ao seu lado.

Quando chega à janela, ascende mais um cigarro e não escuta mais nada. Respira com dificuldade observando todo o lixo da noite anterior acumulado nas sarjetas. Estabelecimentos fechados, poucos automóveis e uma pessoa ou outra a caminhar em zigue-zague. Naquele momento, um vazio toma por completo o corpo de Carlos, quando as lágrimas grossas e salgadas começam a rolar como um pranto que já acostumou-se com seu percurso nos sulcos de uma pele demarcada e sofrida. “Adeus ano velho – Feliz ano novo!”

Enquanto lemos tranquilos este texto, com nossas barrigas fartas, ainda sofrendo com o acúmulo das festividades do final de ano – arrotamos felizes pensando nos laços afetivos fortificados, com nossos pais e mães comprometendo-se com mais apoio emocional e ajuda financeira. Por outro triste lado, continuam Carlos e Antonias comemorando seus pulsares de vida à margem de nossas preocupações individuais. A cada sol que nasce – um esforço que não conseguimos imaginar. São lampejos de vidas machucadas que nossa vã percepção não alcança. Aquele espumante que ingeri não compadece minha empatia. As pessoas entrarão mais um ano pensando em aperfeiçoar seus lobos dentro de si.

Portanto, não se esqueçam de afiar seus dentes e suas garras, pois um ano novo já começou!