Lições do Amor

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Lá estou eu, Américo da Silva. Flanela e jeans. Andando sob um céu que não era mais azul, agora era vermelho. Insinuando rebeldia, sangue e castigo.

A chuva desabava por dias seguidos, transformando a população em reclusos urbanos. Os raios e trovões eram constantes, provocando falta de luz e queda de energia na maioria dos bairros.

Bueiros transbordando o resto humano, bares e fumaças trancafiados. Inundação.

Eu apenas quero deslocar-me ao outro lado da cidade, resolver minha noite passada.

Jéssica já deve estar acordada, ou deve estar pensando, remoendo possibilidades.

O caminho é duro, estou ensopado. O vento dobra o guarda-chuva, inibindo meu avanço. Será um sinal dos deuses? Volte! Desista! Que nada!

Sou a única alma das ruas, tentando amadurecer, procurando meu ser escondido em algum lugar, deve estar molhado e com frio.

A cabeça cheia faz com que me esqueça por um tempo da adversidade. Existem outras dúvidas pernoitando minha existência.

Quando chego ao destino, sou recebido pela avó de Jéssica com surpresa.

– Meu filho, quanta chuva! Quanto perigo solto aí fora! Entre, sente-se ela disse.

– Muito obrigado dona Lígia. São águas atrasadas, vou ao banheiro me secar.

Nisso, ela volta para a cozinha, gritando à Jéssica minha chegada.

– O Américo está aqui!

Silêncio.

Quando Jéssica sai do quarto, lança-me um olhar de desgosto que permeia todo o ambiente. Um clima pesado soma-se ao tempo agressivo que não cessa.

– Caminhou em meio a toda essa chuva! Olha só o teu estado!

Pois é eu disse. Queria muito te ver!

Estávamos juntos noite passada ela disse.

Eu sabia a partir dali, que tudo poderia virar inundação. Tinha atravessado a cidade meio caminhando, meio correndo e nada tinha sido considerado.

– Olha só Jéssica, me dá um beijo agora!

– Não estou a fim! Não esperava você aqui!

– Afinal qual o problema? Enfrentei todo esse contratempo e acabei só conseguindo mesmo ser inconveniente.

– Vou embora!

– Espere!

– O que é?

– Acho melhor a gente por um fim, eu não sou o que tu queres que eu seja.

– Uma namorada?

– Exatamente!

– Eu fiz alguma coisa?

– Não existe culpa, apenas não existe amor suficiente. Entusiasmo.

E então veio a inundação. Saí quieto, deixando apenas um tchau simplório, vazio, triste.

Chorar não valeria a pena. Bastava toda aquela água. Era um momento apropriado, mas não.

Retornei lentamente sentindo os pingos e todo aquele excesso da chuva, lavando minha alma, levando os resíduos de um amor germinal.

Sementes de um amanhecer que não veio. Surpresas do coração.

Pensei no que fiz noite passada. Declarei todo meu amor. Deixei-a assustada, mas jamais tinha percebido sua rejeição. Sua reação foi levantar o copo de cerveja apenas.

Eu era novo, eu estava aprendendo.

Eu sabia que para ganhar uma nova mulher, Jéssica deveria ser deixada para trás. Já tinhas bons motivos e assim foi.

Nunca mais a vi, mas às vezes ela aparece em minha cabeça só para dizer oi.