Minhas razões, tuas razões, nossas razões

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Os dias passam enquanto os prazos consomem. As rugas ficam como recompensa das experiências. Tragédias e comédias existidas vão reconstruindo fragmentos de Shakespeare. Os ninhos polpudos vão sendo aos poucos abandonados. Descemos a íngreme cadeia de montanhas para buscarmos solitários a plenitude da alma. A sobrevivência animal seguindo seus ritos numa luta entre predador e pressa, opressores e oprimidos, ricos e pobres. A redenção antigamente vendida pelas ruas de Roma, hoje se encontra perdida pelas vielas sujas de um lamaçal esquecido. Sem cipós para nos segurarmos dos ataques políticos vindos de baixo, somos atingidos pelo mal da manipulação que provém do subsolo.

Nossas inquietações são dividas com um Deus passivo diante de nossa passividade. Lamentações mortas tentam continuamente serem revividas num mundo desolado de guerra e fome. Bolos assados feitos do barro das mãos divinas. Guerras internacionais financiadas pelos próprios nativos que contribuem para uma causa bélica mesmo sem perceberem conscientemente aquilo que estão fazendo. Obediência civil! A poesia confeccionada pelos ensaístas românticos cumpre um trajeto simbólico no mercado editorial. Assim, nossos bidês transformam-se em pilhas elevadas de páginas sem sentido. Um vazio existencial pinta a parede do quarto e rega as plantas domésticas cheias de saudade. As velas ácidas derramam sua cera nos pires de porcelana. A decoração medieval faz transpor o passado para o presente. As contas a pagar distribuídas pelas peças da moradia formam as amarras do viver em sociedade. Já há um padrão. Não há escolha. Onde está o livre arbítrio não só como mera opção, mas disponibilizado naturalmente com as condições para escolhê-lo e principalmente, para exercê-lo com segurança pelas terras ainda pouco habitadas? Os mares trazem as tartarugas cuspindo os plásticos da sociedade pós-moderna. A luz deste fato – há apenas o pós-primata. Um selvagem falante que brigará ruidosamente por uma vaga de estacionamento. Um bárbaro que absorverá sua cota e a dos vacilantes no jogo do azar.

A sorte corresponde aos números das contas bancárias – quanto maiores às dezenas, maiores as possibilidades. Prossigam crucificando os bondosos soturnos e suas discrições. Peguem os alto-falantes e anunciem suas presenças. Ascendam suas fogueiras e espetem seus corações. Os conceitos de imparcialidade e neutralidade são forjados pelo capitalismo financiador de propósitos. O dinheiro é usado como ferramenta de manobra política. O Estado permanece exercendo sua essência secular, mediando à (in) capacidade de socialização dos seres humanos. O mundo preenchido pela matilha humana, não alcança resultados satisfatórios numa presunção hipotética de autogerenciamento. Matamos a luz de um niilismo nem mesmo entendido por aqueles que rejeitam o conjunto de valores morais. Se fossemos extensões autônomas criativas do Grande Lebowski, talvez levássemos os rumos do planeta para um ócio constante sustentado na paz e no diálogo reflexivo. Por outro lado, instauraríamos um sistema anarquista moderno pautado pela produtividade sem horário comercial. A arte seria elevada a um patamar digno de sua representatividade abstrata, tomando os mesmos contornos idealizados por André Breton (1896-1966). Uma educação gerida desde o aleitamento materno conforme a filosofia pedagógica do humanista Erasmo de Rotterdam.

Depois de toda a evolução da modernidade e sua contribuição na (trans) mutação paradigmática, coroamos logo na primeira metade do Século XX o estopim de duas guerras mundiais. Interesses expansionistas, corrida armamentista, nacionalismo exacerbado, políticas de raça, escravatura, submissão, maus-tratos, torturas, bombas atômicas e holocausto. Valas e mais valas cheias de cadáveres de irmãos inocentes. Uma cortina cheirando a morte declinou-se sobre nós. A geração atual não pode abster-se em dissertar recolhido na sua singularidade, todos têm uma parcela de culpa na construção de nossa espécie e, por conseguinte, no processo de renovação cultural entre as gerações. Dizem que a verdadeira paz não é tão somente a ausência de guerra, mas a ausência de negatividade. Acho que a filosofia da linguagem deve ser exercitada como arma pacificadora nas relações diplomáticas e seus constantes embates sob a ótica nociva dos interesses estratégicos. Petróleo, gás natural, água doce, diamantes e pedras preciosas, o enriquecimento de urânio significa o que? Para que? Para quem?

Minhas aspirações são doravante pretensiosas na problemática científica. Se pararmos e olharmos calmamente para os lados, poderemos observar iniciativas isoladas lutando pela sua sobrevivência metodológica e epistemológica. A validação dos conhecimentos como pensamentos universais criam certas barreiras que solidificam as eventuais pretensões de desconstrução analítica. Penso numa educação renovada pela arte, que use o deslocamento imaginativo/especulativo como método de transportação para novas realidades – novas significações. Nossa política se arrasta como cobra peçonhenta. Agonizante, embora ainda venenosa. Percebo nossa imaginação ser anestesiada gradualmente nos periódicos meramente informativos. Uma comodidade que se balança na rede contemplando o mar. Alimentamo-la em seu conforto anestésico e sutilmente conduzimos nossa existência temporária a um estado de castração (i) reversível. Quando somos incorporados por reflexões atormentadas, perguntamo-nos o que realmente queremos? O que nos importa? Qual o sentido do mundo dentro de nossas perspectivas?

Seria interessante pensar na plasticidade do capitalismo e suas reações. Plasticidade no sentido etimológico empregado pelo filósofo e psicanalista Slavoj Zizek (1949) – deriva de suas análises e constatações sobre a existência do capitalismo mesmo sendo marcada por crises, exploração, massificação da cultura e tantas outras mazelas, ainda assim resiste como sistema dominante da economia global. Antes a discussão teórica variava entre os pólos capitalismo/socialismo, hoje se pergunta qual foi o menos pior, ou qual o menos nocivo em relação a nossas projeções. Poderíamos dobrar na curva da ideologia e novamente refazer a pergunta. Penso que esta é a prova singela de nossa condição anestésica de meros expectadores da política. Poderíamos ao menos aperfeiçoar o modelo capitalista vigente, deixando-o mais arrojado dentro de sua plasticidade. O colapso bancário da Ilha de Chipre é a nova notícia. Novamente temos o mercado da zona do euro abalado. Vejo soluções serem apontadas apenas na criação de fundos de ajuda mútua nos casos de tensão. Uma espécie de Cruz Vermelha da economia.

Outra questão importante que me deparo consiste no muro invisível/cultural que separa o ocidente do oriente. Ainda não consigo erguer-me em bases científicas para espiar e sobrepujar o outro lado. São concepções diversas do pensamento clássico ocidental. O que poderia ser de grande valia na libertação de muitos conceitos. Um movimento recíproco/cooperativo doravante far-se-ia necessário. O choque cultural representa a imagem de dois trens balas colidindo num trilho único. O freio soaria como a possibilidade de uma meditação capaz de aproveitar as diferenças daí advindas. Transcendemos de maneiras opostas dependendo do lado do muro. Há muitas dúvidas quanto ao fim da Guerra Fria. Talvez um conflito ainda mais clarividente e invisível. Criamos um processo condutivo de decoro na relação EUA/Europa – Rússia/China. Para dizer os mais expoentes. As decisões e compromissos internacionais são intercedidos pela teatralidade características dos agentes (personagens) políticos.

Enfim meus caros e nobres leitores – posso afirmar que mesmo estando longe da velhice, consigo vislumbrar minha condição futura rememorando a vida a par dos Morangos Silvestres de Ingmar Bergman (1918-2007). Mesmo a morte natural estando longe, ela sempre observa a espreita. Nossa vida precisa ser encarada como algo sacro, e não somente os rituais litúrgicos de louvor a Deus. Como diria Rajneesh Chandra Mohan Jain (1931-1990): Existem duas lápides, vistas numa parte afastada do planeta. Numa está escrito: Deus está morto – assinado: Friedrich Nietzsche. Na outra está escrito: Nietzsche está morto – assinado: Deus.