O Filósofo de Hitler

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Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) ao retratar o ser humano, empregou como enredo a atmosfera mitológica grega centrada na polarização do apolíneo e do dionisíaco, defendendo também, que esta duplicidade estava estritamente ligada ao contínuo desenvolvimento da arte e da cultura.

Assim, elucidando os questionamentos levantados na coluna da semana passada, a ideia de Nietzsche enquanto Apolo era simbolizar a conduta apropriada que a coletividade rezinga, a chamada adequação social, trazendo a noção de que devemos cotidianamente nos inserir as exigências da sociedade contemporânea como cidadãos de excelência, preocupados em nos fazer transparecer como um indivíduo de comportamento exemplar aos olhos de quem nos escolta.

Já Dionísio ou Baco, representa essencialmente à inversão da natureza apolínea, concebendo o instinto selvagem desacompanhado, o desejo puro, a irracionalidade, bem como os devaneios e fantasias de todas as espécies através de um surrealismo imaginário prático ainda não conhecido.

Dito isto, agora tornou-se fácil compreender os aforismos nietzschianos, partindo da premissa de que todos nós temos um pouco de Apolo e Dionísio incrustados em nosso DNA. Somos condicionados pelo sistema mundano em sua maioria, a ininterruptamente aperfeiçoar e desenvolver nosso espírito apolíneo, seguindo as regras estabelecidas e mantendo-nos alertas em relação a qualquer desvio comportamental. Em contrapartida, necessitamos encerrar friamente e sem dó, nosso rebelde Dionísio no calabouço existencial, como forma de nos mantermos seguros de nós mesmos, primando pela nossa previsibilidade e colocando-nos como alvo de difamação aos que pensam de maneira diferente.

Penso que Nietzsche teve seu lado dionisíaco gritante e aflorado enquanto escrevia sua obra inspirando ares gregos. Passado algumas décadas, a personificação do mal Adolf Hitler (1889-1945) e sua ideologia nazista, iriam promover a repugnante “Bucherverbrennung” (queima de livros), elegendo postumamente Nietzsche como o filósofo símbolo do III Reich, invertendo assim a lógica de seus inquietantes fundamentos.

Se Friedrich Nietzsche estivesse vivo na Alemanha de Hitler, faria como outro escritor alemão chamado Oskar Maria Graf (1894-1967), que ao notar a ausência de seu nome na lista de autores proibidos pelos nazistas, publicou um artigo intitulado “Verbrennt mich” (queimem-me) no periódico “Wierner Arbeiterzeitung” (jornal do trabalhador vienense). Um ano depois, em 1934, seu desejo viria a tornar-se realidade, tendo sua obra transformada em elemento alienante da nova cultura alemã.

Guardado os absurdos, encerro o presente artigo com uma frase do poeta romântico Heinrich Heine (1797-1856): “Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas”. Sábia profecia!