O Onirismo Abstrato de “Eraserhead”

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Não é fácil para ninguém dissertar algo acerca do controverso cineasta norte-americano David Lynch (1946). Tal colocação será a única certeza absoluta que teremos sobre a atmosfera nefasta que Lynch construiu em torno de si ao longo de sua carreira, preocupado desde o início em afastar as sombras da exatidão humana. Assim, resenhar sobre “Eraserhead” (1977) seu primeiro longa-metragem, além de ser uma responsabilidade intricada e ao mesmo tempo desafiadora, origina-se essencialmente da inquietude reflexiva a partir da negativa de Lynch durante toda sua vida, em pronunciar qualquer comentário que busque interpretar “Eraserhead” ou que simplesmente compile as sucessivas tomadas surrealistas do filme em respostas objetivas.

“Eraserhead” antes de tudo apresenta algumas curiosidades primordiais. Foi escrito, dirigido e produzido por Lynch, sendo considerado pelo mesmo como seu trabalho mais pessoal. Pintado aos moldes de “Um Cão Andaluz” (1928) de Luis Buñel (1900-1983) sobressai-se naturalmente pelo seu experimentalismo onírico de natureza praticamente indecifrável. Suscetível e aberto a diferentes interpretações que partem de premissas profundamente subjetivas. Os comentários dão conta de que sua primeira fase de produção começou em 1970, parando de tempo em tempo conforme Lynch angariava fundos para sua continuidade. John Nance, o protagonista que interpreta o enigmático Henry Spencer, teve que cultivar por anos a cabeleira exótica que dá vida as características de seu bizarro personagem. Este comprometimento com o projeto é interessante salientar, representando um romantismo em decadência nos dias atuais. Destarte, apesar de “Eraserhead” não arrecadar milhões em bilheteria e como resultado, enriquecer seus idealizadores, tornou-se logo cultuado pelas gerações de cinéfilos apaixonados que viam ali, a originalidade de um iniciante que despertava grandes expectativas usando a mistura de elementos estéticos pouco ortodoxos na indústria hollywoodiana. Talvez isso também ajude a explicar o fato de Lynch na maioria das vezes, buscar parcerias na Europa para financiar seus trabalhos fundamentalmente espirituais.

Os temas abordados em “Eraserhead” transitam pelo universo confuso entre sonho e realidade, a fusão do comum e estranho, sentimentos de culpa, desejos frustrados, alienação, relações hostis entre seres humanos – lembrando as metamorfoses kafkianas, e, sobretudo, a preocupação com as estéticas personificadas erigidas pelo espírito do capitalismo, bem como a decadência industrial e suas reações claustrofóbicas. Tudo enquadrado num ambiente apocalíptico, de onde emergem sons constantes de máquinas trabalhando a todo vapor, ventos uivantes, zunidos e chiados de todo o tipo, combinado com fotografia pesada aos moldes do expressionismo alemão.

Quanto à possibilidade de discorrer mais detalhadamente sobre as cenas hipnóticas e o enredo da obra em si, fica a cargo do leitor atrever-se em percorrer os caminhos sediciosos encenados em “Eraserhead” e seus efeitos psicológicos sombrios provocados em nosso conforto perceptivo.

Uma pequena recomendação que deixo é que jamais levem algum filme de David Lynch, principalmente “Eraserhead” para uma eventual “sessão da tarde” na casa da sogra. Digo isto, amparado na máxima: “Quem avisa amigo é”.