O que acho que sei, o que tenho certeza que não sei e outras anotações sensoriais

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Ando me perdendo em meus horários. Tenho tido pouco tempo para a distração e o entretenimento. O tempo anda curto e escasso. Na semana passada, por exemplo, minha coluna não foi publicada e senti uma espécie de sentimento de negação e irresponsabilidade profissional.

A filosofia clássica diria que as explicações não giram em torno da temática “tempo”. O meu tempo é o mesmo tempo de todo mundo. Se não consigo honrar com determinados compromissos, a razão simplesmente foi pela escolha hierárquica de prioridades. Penso que é exatamente isto. Não escrevi semana passada, pois dediquei meu tempo em outras coisas que pediam minha total dedicação. Enfim, releguei infelizmente o JM em segundo plano. Seria uma audácia afirmar tamanho descaso? Com certeza sim, uma vez que minha atitude afeta uma gama de pessoas que não interessa absolutamente em nada minhas possibilidades de honrar ou não com aquilo que assumi como concordata. Refiro-me aqui aos trabalhadores da redação do jornal e a minoria de leitores perdidos por aí que contavam com meu recado singelo para a quinta-feira última. Peço desculpas pela falha do mesmo modo que tenho consciência que no fim das contas, foi uma atitude fatalista que às vezes o acaso provoca.

Fico refletindo agora principalmente no que passa na cabeça dos colegas colunistas, que devem pensar: “eu também tenho inúmeros afazeres e meu texto sempre está rigorosamente no mesmo lugar toda semana”. Respondo-lhes: “meus parabéns”. Também noto as estruturas e as naturezas dos diferentes textos que toda semana são publicados nos jornais locais. Geralmente, com todo o respeito, são observações de cunho meramente superficial-informativa mesclado com afirmações simplórias. Poucas indagações reflexivas e exaustivas reproduções de notícias e eventos de jornais de maior porte. Cada um – cada um. Meus apontamentos estão longe de serem parâmetros para algum modelo literário pertinente, mas ainda acho que deposito um desprendimento de energia considerável quando sento na cadeira para passar algum aviso que suponho ser importante para os outros. Confesso tranquilamente que afirmo certas coisas que nem mesmo eu sinto firmeza ao pronunciar. São conflitos que corroem as mentes humanas e alienante seria se os guardasse somente para mim. Quero dividi-los enquanto ainda possuo a compreensão de não fechar-me dentro de mim mesmo e assim, por consequência, me perder em labirintos de devaneios especulativos.

Ao escrever para o JM, ignoro a abrangência de municípios que o respectivo jornal circula e desprezo a potencialidade de juízos valorativos que possam advir no que diz respeito às construções argumentativas de cada texto. Um risco sem tamanho. Ao emitirmos uma opinião publicamente, nos transformamos em alvos que respiram esperando por dardos cheios de saliva e germes bacterianos do organismo. É sempre bom polemizar, mesmo que não seja gratificante financeiramente. É estranho quando pessoas interpretam precipitadamente algumas colocações e condicionam ao que querem realmente dizer.

Mas fazendo uma retrospectiva da semana passada, na qual não publiquei nada no meu espaço, o mais interessante e significativo daqueles dias foi à experiência no Congresso Estadual de Teologia na EST (Escola Superior de Teologia) de São Leopoldo. Considerada por muitos como o melhor programa de ensino teológico sistemático do Brasil e referencia para outros países do continente latino-americano. Primeiramente, me impressionei com a estrutura do local. Fechada num condomínio espaçoso e arborizado, a EST ocupa quase todos os prédios ali estabelecidos. Possui uma extensa biblioteca de três andares e uma editora funcionando nas dependências da própria instituição. Um programa de pós-graduação que possibilita inúmeras viagens ao exterior e um corpo docente qualificado.

Chegando ao congresso, notei a presença de católicos, protestantes, franciscanos, jesuítas, irmãos maristas, lassalistas e por aí vai. Uma variedade de confissões e congregações religiosas. Parei e senti aos poucos minha condição de leigo e representante somente de mim mesmo. Digo no sentido da fé, crença ou religiosidade. Por mais que estivesse em nome do Instituto Missioneiro de Teologia, nem batizado sou. Se por ventura surgisse algum debate, deveria defender apenas minha religiosidade. O que é extremamente complexo, visto que certas coisas a linguagem não dá conta. É impossível e muitas vezes desnecessário racionalizar algo que se sente. Mesmo não cabendo na lógica da razão, algumas experiências sensoriais são ricas em auto-afirmações existências. Não entrarei em minhas particularidades, mas quando falamos em Deus, os relativismos aparecem de mãos dadas. O ser humano é sujeito que se molda aos paradigmas da humanidade. O que é uma frase um tanto quanto curiosa. Mas continuando, sentia o cheiro de muitos churrascos no qual cada teólogo churrasqueiro puxava a brasa para o seu assado. De picanhas a miúdos. Tinha para todos os gostos. Acabei enjoando da carne e mapeei a maioria dos banheiros da EST. Um desconforto intestinal provocado pelo pluralismo de teologias. Será que não sei lidar com a laicidade e com a democracia? Não sei ao certo. O que sei é que ao menos as palestras acabaram surtindo algum efeito interrogativo. Fora isso, acabei sentindo grande satisfação ao ver meus colegas seminaristas apresentando suas comunicações. Fiz uso de meus questionamentos como forma de inserir-me em cada contexto apresentado. Senti-me frustrado por não trazer nenhuma discussão teológica com potencial cientificista.
Na questão hospedagem, fiquei abrigado numa Casa Social Marista em Novo Hamburgo. A cada noite, travava intensos debates com os Irmãos Urbano e Cláudio. Este último, trazia na bagagem trinta e dois anos de vivência em Moçambique. Depois de sentir quase que na pele a vida Marista, conclui que jamais serei um. Por quê? São vários fatores, a vocês posso garantir que pouco importa dissertar sobre os motivos. Mesmo assim, é sempre pertinente confrontar outras realidades que não a nossa.

Quase me esquecendo, o tema do congresso era: “O fazer evangelizador com as juventudes: desafio para a teologia e a Igreja”. Deixo para vocês as conclusões sobrevindas daí. No mais, fico por aqui para evitar o risco de ficar sem ideias para a próxima semana. Acho que todos os supostos escritores (colunistas) pensam nisso. Porém o ego serve para ser massageado e não sumariamente violentado. Nem ousarei falar sobre o tempo, tendo em vista as explicações aqui sustentadas. Tentarei realocar minhas prioridades, não mais deixando o JM sofrer as consequências. Caso sofra, dificilmente haverá outro congresso para depositar a culpa.