O que somos?

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Aquilo que antigamente, ou talvez sempre presente, como queiram, tenha num passado tido como meramente sonho, ou ainda, estivera relegado ao reino da literatura ficcional, sempre com o passar dos anos tende a transformar-se em realidade. Essa mutação se materializa oficialmente em reportagens de capa de jornais e revistas, e antes mesmo, em manchetes online. A respeitabilidade e merecida atenção dos homens torna-se cabíveis e aceitáveis apenas no momento da concretude de nossas ações. Alguém diria que nada é mais natural. O que quero dizer, é que os pensamentos delimitados a teoria dos devaneios fantasiosos, encontra certa resistência em nossos cérebros ociosos. Por mais extraordinário que seja a projeção inicial, a teimosia humana cava suas trincheiras da não aceitação. A redenção póstuma não se discute.

Bem disseram os cristãos, nas palavras de Hannah Arendt (1906-1975), na obra “A Condição Humana”, ao designar a terra como o vale de lágrimas. Prefiro entender nosso planeta como um campo de batalha constantemente em conflito. Não compreendam tais palavras como a propagação de um escritor de alucinações bélicas, mas sim, como constatação de uma divisão entre um grande exército de malfeitores contra uma minoria de surrealistas inocentes. Bombas nucleares versus lanças artesanais.

Quem diria que a aceitação de Deus como o Pai dos homens no céu, iria terminar com o advento de um objeto terrestre posto em órbita entre astros naturais que até então imperavam absolutos como guardiões do nosso planeta habitável. Tais “conquistas”, fazem meu esmorecimento terreno irem temporariamente para longe. Sinto-me emancipado de minhas próprias dúvidas. Retorno das profundezas do oceano para respirar novamente na margem das areias densas.

Gostaria que parassem de manipular a figura de Deus. Gostaria que parassem de misturar numa só panela fé e religião. Perguntaram-me se acredito afinal no Senhor dos homens, ou o que for. Eu apenas aceito o Sol juntamente com seu calor e brilhos únicos. Também acolho o grande casco estelar cobrindo minha existência todas as noites. Recebo a chuva revigorante que energiza a alma e assim faz brotar as sementes. Percebo a orquestra de sons oriundos das ondas na arrebentação frente ao quebra-mar. Atuam as cortinas d’água como trilhas sonoras aos pobres mortais. Esqueçam um minuto das crenças e sintam a obra da natureza. Toda natureza e seu conjunto não como obra de um determinado Deus, mas como personificação do meu próprio Deus particular. Aí reside o ponto de minha teia argumentativa.

Peço por favor, para não ser interpelado com profecias milagrosas, em que mãos cheias de piedade e barro curam cegos desventurados. As anomalias genéticas só a ciência tende a explicar, quando está em seu poder, é claro. Censurem as bocas dos que defendem o divino, igual fizeram durante a Idade Média aos hereges profanadores da razão. O medo não habita em mim, o que também não dá sob hipótese nenhuma, o direito de rotularem-me como ateu. Eu sou o que sou – apenas isso, sem ter que sofrer com as necessidades etimológicas e seus carmas. Aceito o surrealismo particular como classificação religiosa.

Apreendo meus próprios amigos lançarem-me olhares tortos de desaprovação. Sinto na pele a não aceitação do plausível. Minha sombra é meu anjo, o que claramente explica nossa eterna vulnerabilidade. Seria bom jogar todo o pessimismo numa grande fogueira de São João. Deixar queimar as vistas de quem assiste. Suspirar aliviado pela extração do câncer.

Na vida há sempre caminhos a serem escolhidos, porém são rotas de apenas um sentido. A mão dupla que você depositaria toda sua esperança para o ocaso do arrependimento, o tempo se encarrega de percorrê-la. Não há volta sem o preço que o tempo cobra. As consequências são as marcas no rosto.

Sinceramente, não gosto de rótulos. O que escrevo automaticamente transforma-se em interpretações padronizadas. O cenário criado para se edificar o julgamento popular. O raciocínio é planificado como muros de concreto bruto. Muros de Berlim. Depois, nós mesmos armados de picaretas, vamos desconstruindo as precipitações e cobranças mundanas que são feitas nos quatro cantos. Temos sempre que nos auto-explicar, mesmo quando não há intenção premeditada em manusear certos conceitos. Apenas a literatura filosófica despejada, acaba por criar transtornos na ditadura do senso comum.

– Diga-me César, tu tens religião? É a, b, c, d, e por aí vai.

Para a Teologia somos leigos, para os demais cursos universitários somos bixos, para o exército somos recrutas, para os profissionais somos amadores, para os experientes somos novatos, para os inteligentes somos ignorantes e assim a sociedade sobrevive. Perante a isso, no meu entender pouco importa. Mais preocupante é o conflito de retina diário que temos quando nos confrontamos frente ao espelho. Quem eu sou? Quem sou eu? Respondam para si e jamais para mim ou para outro qualquer. A alteridade precisa dar as mãos com a introspecção.