Os Conflitos Kafkianos em O Veredicto

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Analisando no plano imaginário o suicídio kafkiano da obra O Veredicto (1912), aonde Georg Bendemann após ser surpreendido de certa maneira pela perspicácia empírica do pai, desce as escadas de sua casa violentamente para confrontar a morte. Numa cena de ação digna de Franz Kafka (1883-1924), Georg parte então em busca de uma redenção tardia.

“Humano demasiado humano”. A filosofia de vida girando em torno do patriarcalismo primitivo, seguindo assim a tradição, plantando sementes feudais e discutindo os conceitos do mundo em meio a uma colheita sórdida, trazida a tona também, porém sob outro viés, no épico livro Lavoura Arcaica (1975) de Raduan Nassar (1935).

Caminhando de Kafka a Nassar, as culturas acabam desempenhando um papel nocivo e preponderante frente às relações familiares, transformando entes geneticamente ligados entre si, em seres com sérios potencias agressivos. Meros dramas familiares resultados de choques culturais! Seriam assim que reflexões assassinas fariam desconsiderar tais fundamentos.

A cada parágrafo de O Veredicto, um sentimento difuso. Emoção disfarçada de surpresa. Agonia e angustia. Construções kafkianas de fino trato. Uma psicologia refinada premeditando um grande conflito mundial a vista. Morte ao inimigo. Empatia sepultada e reinos individuais diluídos num mundo cão.

O noivado de Georg não significava nada, talvez um crescimento econômico e pouca benesse espiritual. Empreendedorismos diabólicos, traição, trapaças e grandes negócios. Um conflito doméstico entre pai e filho que alcança proporções constrangedoras, resultando na perda total do controle e absoluta desolação.

O veredicto asqueroso do velho pai de Georg é dirigido ao caminho inescrupuloso trilhado pelo respeitável filho. Em meio ao paralelo contraditório, questionamentos de razoabilidade e distintas interpretações, a responsabilidade existencial na leitura da citada obra é lançada como forma de alento. Permanecendo um teatro de diferentes vidas, pequenos espíritos – grandes negócios. Autonomia proibida. O pai de Georg rogando suas bravatas contra o maldito dinheiro. Economia do poder ele pensou. Lúcifer tentou sobrepujar seu patriarca, puxando seu tapete e encontrando assim o submundo, o silêncio e a dor.

Georg Bendemann provavelmente desprezou todo o universo de valores axiológicos. Era esta a visão do velho, sentindo-se golpeado pelas costas, fora do comando. Guardou seu último lote de energia para jogar o filho contra si próprio. Apesar de continuamente Kafka descrever a figura acamada do pai, aos olhos até então cheios de vida de Georg, o mesmo fazia transparecer-se como um gigante autoritário. Repugnante em fazer valer suas vontades em forma de gritos, ordens, mandos e decretos sem sentido.

Difícil de explicar o apaixonado Kafka, perpetrando como essencial a interpretação do subtexto. Escreve uma linha e deixa a segunda em branco. Assim sua narrativa democrática celebra o existencialismo fenomenológico.

Um veredicto ganancioso, exploratório e infantil, jogando toda a sobrecarga da onda colossal nos ombros da vitalidade. Amores incompreensíveis, ou apenas unilaterais. O velho assim fantasiou em seu discurso do pecado:

– Agora, portanto você sabe o que existia além de você, até aqui sabia apenas de si mesmo!

Enquanto Georg numa ciranda de lembranças responde equivocadamente:

– Queridos pais, eu sempre os amei.

Entre este lapso de tempo, muitos elementos desassossegarão.

A partir dos enigmas elaborados pelo autor tcheco, o que resta saber é que sua literatura é antes de tudo um fluxo de imagens, deixando de lado quaisquer intenções explicativas em sua subjetividade interpretativa.

De acordo com Modesto Carone (1937), considerado pela crítica especializada como o melhor tradutor da obra de Franz Kafka, O Veredicto foi escrito de um só fôlego, na noite de 22 para 23 de setembro de 1912, das dez da noite às seis da manhã, quando Kafka tinha 29 anos de idade.