Poema do amor surrealista

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Em pesadelos desvairados em lençóis de algodão. Suor que respinga o sôfrego elemento do amor. Pequenos fragmentos de dúvida e cólera.

Noites transpassadas em frenesis constantes. Incertezas revestidas num longo trilho dourado, que ilumina apenas as aparências – escondendo as essências. Varridas como pó para baixo do tapete.

Como um belo arcanjo triste, com suas longas asas engessadas. Que ao passo do tempo tornam-se roxas pela falta de movimentos. Habilidades perdidas. Liberdades chaveadas.

Onde somos colados frente à balança do apego. Sem pudor, tampouco desolações de respeito.

Em ritmo irrequieto, fugindo das crucificações, lendo Henry Miller, Bukowski e Kerouac. De nada adianta o conhecimento pouco aplicado.

Hoje a liberdade já não tem significado certo, nunca teve e nunca terá. É a palma da mão abrindo-se na ambiguidade que permeia.

Somos tão inexperientes e incapazes, soldados a mando do místico, em relações conflituosas e frágeis. Trago apenas a esperança de energia, mais uma tentativa, mais um suspiro para toda uma vida.

São dilemas constantes e voadores, como mosquitos que duram no máximo 48 horas, renovando-se num círculo vicioso de pura química onírica.

Acendemos o fogão numa refeição diária, cabeça cheia e cobranças à vista, aparecem como terra firme atrasada apenas pelo compasso do relógio. Logo virão, inseridas na cadenciosa dança da maré.

Manobrando contra um mar agitado como meu coração, onde sou o capitão solitário de um olho só, papagaio negro e perna de pau, empino o rum castigado do barril secular.

Cuidem de suas moças, prestem atenção! Sintam os cheiros e seus movimentos unidimensionais, olhem para o lado e principalmente preservem suas asas. Ambos os pares merecem serem cultivados e regados. Trabalhados numa fisioterapia invariável. Exercitando suas liberdades individuais.

Fujam do comando, remem para longe, aproveitem a maré de Papillon. Navegando em passagens surrealistas, pensamentos despejados, representando o mundo distorcido de quem se perdeu entre o ser e o nada.

Em um gigante parque colorido somos sobrepujados pelo vento arenoso de um grande covil, entre teias e questionamentos, já não somos mais quem desejamos ser.

O amor confundiu o escoteiro amador e seu mapa em preto e branco. Tente soltar suas asas esquecidas e atrofiadas. A vida doa e cobra, e no meio de tantas oferendas para mil santos, quando possuímos outra vez nossas asas, voltamos a migrar para o sul de lugar nenhum. Sem roteiro, sem objetivo e sem exatidão. Pobres de espíritos e sem mais poder de discernimento.

Um arcanjo feio e mortal, sem mais a áurea sublime que um dia o agasalhou. Sobrou apenas o surrado barco, atônico num oceano escuro de terras distantes.