Reflexões Marginais ou Reflexões Marginalizadas?

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Continuando pelo submundo das reflexões marginais ou marginalizadas, remetendo à crítica sobre o ensino convencional do direito feita semana passada neste espaço, hoje avançaremos então para a hierarquia superior do meio acadêmico, saindo da ótica dos tantos cursos de graduação ofertados pelos quatro cantos do país, para discorrer sobre os programas de mestrado e doutorado, opções com contornos mais delimitados em relação ao primeiro, porém, também suscetível a eventuais críticas.

Pois bem, enquanto na graduação o aluno compõe sua busca intelectual abraçado unicamente ao “Vade Mecum”, (livro jurídico sagrado dos técnicos em direito), logo à sua frente, o que se vislumbra depois de uma jornada de cinco anos debruçado num mote de leis que morrem e nascem conforme os liames políticos que conspiram de acordo com o andar da carruagem, apresentam-se posteriormente os almejados cursos de mestrado e doutorado (stricto sensu) que a meu ver, são igualmente impugnáveis. Antes, é importante salientar a exposição por parte de quem escreve – no sentido de estabelecer convicções particulares que possam atingir uma grande maioria de profissionais que prestam seus serviços educacionais ocupando lugares que não necessariamente seriam seus.

Primeiramente, já em nível de mestrado, constataremos uma preocupação das respectivas coordenações em repetir em quase sua totalidade, os mesmos docentes positivistas da graduação novamente no mestrado e consequentemente no doutorado. O que vemos são procuradores, juízes, promotores, defensores, advogados e por aí vai. A mais diversa gama de indivíduos ocupados, que depositam sua energia vital na atividade do seu labor, fato este, mais que natural. Pegamos como exemplo o próprio juiz, muitas vezes refém das cotas impostas pelas corregedorias para produção de sentenças, tendo que transportar processos para sua casa, a fim de vencer a demanda conferida.

Bom, se pensarmos que obrigatoriamente os docentes do mestrado devem exercer como prerrogativa de educação de qualidade o exercício de pesquisador, os argumentos que versam sobre a disponibilidade de tempo dos profissionais tornam-se automaticamente protestáveis, uma vez que o acúmulo de atividades não alcança a condição distinta que o ensino do saber careceria. Portanto, afirmo aqui, que o mercado de trabalho posiciona-se de maneira injusta frente à parcela de marginais, que aspiram um espaço já preenchido por sujeitos monopolizadores, que se mostram indiferentes à realidade.

Estes exímios técnicos inclusive muitos possuidores da titulação de mestres e doutores, são decisivamente essenciais no ensino da graduação em direito, como dito anteriormente (texto da coluna anterior), com o acúmulo de matérias processuais, nada melhor que profissionais ligados à operacionalidade da legislação, para ocupar esses lugares. Em contrapartida, no ensino do mestrado em que a pesquisa é obrigatória, a instrução acaba sendo fraca e desprovida das reflexões necessárias, atingidas tão somente com o contato nos labirintos das bibliotecas, somando-se a isso, a dedicação, o apreço, a estima e o mais importante, o tão precioso tempo.

Mais uma vez impossibilitado pelo espaço, espero sinceramente que estas linhas atuem como um abridor de portas, e não como minha própria sentença de morte, condenando assim minha existência reflexiva apenas nas adjacências acadêmicas, posto que o capitalismo exacerbado e a infiltração política no âmbito pedagógico não influam como obstáculos em seres que desejam somente o avanço das cercanias para o pé da orelha dos alunos.

Os marginais, subversivos, alternativos, sabotadores do sistema e das verdades tidas como absolutas, os malditos por assim dizer, também merecem seus lugares ao sol. Imaginamos todos de mãos dadas, pesquisadores e técnicos juntos, dividindo os pedaços do bolo numa grande ceia natalina, essa é minha utopia!