Teologia no tempo – evolução até que ponto?

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Dentre os tópicos da obra Fé e Futuro de Joseph Ratzinger, chama-me a atenção o penúltimo tema denominado: “O futuro do mundo pela esperança do homem”. Na análise em questão, Ratzinger interpreta as confissões de S. Agostinho à luz da perspectiva fenomenológica do transcurso do tempo e a tentativa de sondar sua essência existencial. O exame sensível e penetrante de S. Agostinho acerca da natureza humana desemboca na constatação da não existência do presente como elemento delimitável ou suscetível a contornos bem definidos. Conforme a hermenêutica de Ratzinger, no momento em que chamamos alguma coisa ao presente, esse presente também já passou e cedeu lugar a um novo momento. Assim, a abordagem dual de S. Agostinho e Ratzinger sugere que o presente é apenas o ponto inextenso onde se cruzam o passado e o futuro.

Dito isto, dá-se a falsa visão de que o presente nasce somente do fato de nossa consciência reunir um fragmento de tempo numa unidade referente à percepção do que é o presente para cada um. Ratzinger cognomina isto de “impressão do presente”. Criada a problemática, pergunta S. Agostinho: o que é propriamente real se o passado já não existe e o futuro ainda não existe? Enquanto que o presente somos nós mesmos quem o criamos conectando passado e futuro num todo. Que é, portanto realidade?

A par do discurso filosófico-teológico, Ratzinger rememora tais questionamentos na intenção simbólica de ascender uma chama de alerta quando nos debruçamos diante de nosso acesso ao real que aparentemente julgamos tão concreto, tangível e certo. A compreensão humana acaba por assimilar os fenômenos psíquicos e espirituais de uma forma simplista e equivocada. De forma plástica, aponta para um futuro incerto que se faz como estrada de mão dupla. De um lado, as descobertas científicas evoluem num compasso desenfreado, onde as mudanças se precipitam uma depois da outra (esperança/receio). De outro lado, os retrocessos desse ritmo desregrado são absorvidos em sensações de anseio, tensão e medo (receio/esperança). As políticas públicas representam os controladores deste tráfego. Os representantes da população em sua caminhada constante de evolução e aperfeiçoamento para prover seu legado cultural para as gerações futuras. Que herança humanista iremos ambicionar?

Deslocando a reflexão para a atualidade, penso na metamorfose do ontem Cardeal Jorge Mario Bergoglio, hoje Papa Francisco. Criou-se pela mídia uma confusão entre seu passado e seu futuro. Há uma transmutação humana que remete a ideia da entrada no Conclave de uma pessoa e a saída agraciada de outra. Um ex-argentino que se universaliza com a missão pastoral de conduzir daqui em diante os rumos da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) sob novas miragens. Uma realidade viva e pulsante que a cada relance de olhar abraça passado e futuro num presente não compreendido e, por conseguinte distorcido.

O futuro do mundo pela esperança do homem encontra seu sentido na atmosfera caótica contemporânea emergindo como uma baleia doente que de tempo em tempo faz-se notar enchendo seus pulmões de ar e novamente mergulhando no desordenamento mundano – sumindo sôfrego na imensidão das sombras. Acho que o novo Papa deve revisitar a quimérica “cidade do homem”. Aquela abastecida pelo progresso das armas atômicas, biológicas e químicas justificadas pelos interesses estratégicos nacionais de cada Estado. A pregação da humildade recomendada pelo Papa Francisco, remete também as ações paradoxais edificadas e desfeitas pelo homem. Enquanto toca a Lua, horroriza-nos com as guerras. Confunde realidade/progresso – esperança/fé.

No almoço que Bergoglio teve com Ratzinger, suas condições humanas sem disfarces foram acentuadas quando Bento XVI olha para Francisco e sentencia: “o caminho para a Lua é mais fácil de encontrar do que o caminho para si mesmo”. São humanos que dirigem a Igreja, são humanos que governam a Terra. Posto deste modo, o presente vazio e sem fé dos fiéis condicionam diretamente os planos de Francisco para trilhar um caminho alternativo. O abismo do erro repousa no inconsciente. Sendo assim, teremos que ter paciência e cuidado, pois a formação da cidade do homem é um sinal claro de sua vontade e autossuficiência.