Um aeroporto onde pousa minhas saudades

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 São tantas lembranças, lembro-me primeiramente do meu avô e seu velho costume de me convidar para passear em sua Brasília amarela. Nos documentos da relíquia estava expresso como bege jamaicano. Cor oficial. Íamos cada um na sua, quietos como bons cortesãos, não tínhamos medo, nos falávamos pouco. Apenas o barulho do automóvel a trafegar por ruas ainda não asfaltadas. Pelas quais, através da poeira vermelha do pampa oeste rio-grandense, rumávamos como peregrinos para o aeroporto daquela velha cidade do interior.

Dentro desse panorama sulino, exercitávamos nosso silêncio como ferramenta essencial da nossa relação. Pelo menos naqueles instantes, onde a grande diferença de idade o fazia enxergar para trás, enquanto eu num olhar distante pela janela, só conseguia depositar minhas esperanças fantasiosas de criança – numa catapulta que lançava-me em sonhos para um futuro incerto. Previsões impossíveis. Naqueles tempos mágicos, nem tanto. Cada um usava sua janela como quem transporta-se em milésimos de segundos para outras dimensões, o vento cortante proporcionado pela ventarola da Brasília, fazia meu cabelo esvoaçar-se sem rodeios, pintando um quadro natural de infância vivido na humilde casa dos avós.

No deslocamento para a pista do desativado aeroporto, ia atento tentando ler todas as placas possíveis. Borracharias, lancherias, igrejas, locadoras de filme, minimercados, pequenos armazéns, floriculturas, casas enfileiradas típicas do interior e por último, a grande cooperativa de lã. Toda vez que passávamos por ela, meu avô chamava minha atenção para contemplá-la. Ocupava um grande terreno plano e verde, protegida apenas por um cercado de tela. Nossos cobertores grossos e de alta qualidade artesanal provinham todos dali. Era na época nosso orgulho. Todo o resto da história da cidade estava esquecido. Guerra do Paraguai, Missões, nossa formação em si. Porém ao passo de nossas passeadas, meu querido avô cuidava zelosamente de informar-me sobre tudo. Políticos, famílias tradicionais, inimigos, cultura e acontecimentos importantes. Enfim, mostrava com uma lanterna os limites que existiam num velho oeste contemporâneo.

Todo o mapeamento proporcionado pelo meu “pai-avô” ia lentamente preenchendo meu banco de dados cerebral, vindos à tona agora. Os cheiros ainda aparecem de vez quando, como as sensações que me reportam num flashback repentino e agradável. Dentro daquela Brasília estava minha segurança, esperava pacientemente ansioso pelos convites.
Lembro-me de comentarem o fato de meu avô ter se afastado de seus antigos amigos da época do trabalho. Lembro-me de sua gradativa reclusão voluntária. Dividi-a somente comigo por algum motivo difícil de explicitar. Tratava-me a mão de ferro, às vezes batia-me com um olhar doce e preocupado. Pensava que não tinha tanta importância, que talvez estivesse certo. Que precisava antes corrigir-me, do que depois ser castigado pela própria vida. Eram suas as palavras.

Quando a Brasília estacionava em frente ao esquecido aeroporto, descia correndo e me atirava sobre os pequenos muros até alcançar a pista. Ia correndo espantando todos os quero-queros que pudesse. Escutava seus gritos de espanto. Desafiava-os numa inocência perdida. Quando me afastava por demais, olhava para trás buscando a figura do meu avô. Enxergava-o de longe caminhando em direção oposta da pista. Fixava seu olhar para o horizonte, ora para o céu. Uma imagem televisiva fotografada pela memória. Retroajo por um caminho distante para tentar reencontrá-la.

Ao parar para tomar fôlego, depois de correr em círculos, pular e brincar – escutava o sopro do vento num galope de índios charruas. Minha imaginação cessava quando escutava um chamado grosso e seco. Vamos embora! Era assim que o vento trazia sua fala. Pesada mas condizente. Meu amigo misterioso. Sua vida era um baú a sete chaves. Enquanto isso, voltava com toda força para tentar ultrapassa-lo e entrar primeiro na Brasília. Não corre! Não corre!

Penso naqueles tempos e principalmente naquela determinada passagem. A volta era quieta, feita por um caminho alternativo que ia desembocar no cemitério municipal. Passávamos tranquilos e devotos, mais uma vez, já tínhamos proferido nossas rezas particulares. Os efeitos contrários de duas percepções: aeroporto pequeno e gigante, reflexões voltadas para lados opostos, passado e futuro se confundem, balanço e projeção, realidade e fantasia. Hoje quando observo atentamente a fisionomia desfigurada do meu avô causado pelo Alzheimer, sinto toda a falta do mundo em dar-lhe um abraço que traz junto uma lembrança dourada que somente eu estou a sentir.

Sinto seu olhar vazio ainda disfarçar o que realmente pensa. Este é meu avô. Um espelho em transição, um mar em sentido contrário. São tantas lembranças que o Natal aflora. Saudades de sua companhia silenciosa e do seu carinho em forma de olhar de satisfação. As recompensas eram todas soltam no ar. Depois do término deste texto, voltarei de bicicleta sozinho para aquele aeroporto do passado e sentirei os cheiros e sensações mais fortes que agora. A vida tem sempre seus mistérios.