Um triste Rei adormecido

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 Olhando calmamente o movimento linear das árvores, entre flores, jardins e tudo que se pintava de verde no Parque Serafim, estava sentado inclinado para frente, com os cotovelos apoiados na coxa e as mãos postas no rosto. Sentindo o desgosto contornar minhas veias e aos poucos ir se instalando em meu cérebro. Todos os ventos e suas nuances completavam-se num inverno seco e gelado.

A vida simplesmente ultrapassa os limites da compreensão. Age além da consciência do simples saber, não basta um bom baú de livros para se livrar da confusão. Náufrago e isolamento. Sons dos mares que castigam rochas cálidas.

Conforme as pessoas vão cruzando, só a indiferença permanece. Senta comigo, masca um chiclete, solta um sorriso funesto e vai embora. Espírito vazio e narcisista. Vou tentando como um malabarista equilibrar minhas emoções esvoaçantes.

Minha pasta logo ao lado, entreaberta ao passo das folhas amareladas tomarem a liberdade, entrando numa dança carinhosa com as folhas secas das árvores, tudo que é leve voa, brinca, apenas eu não me deixo escapar.

Desilusão em forma de cachoeira, em respingos de ingratidão, minha família, meus próximos, tudo resumido em sombra única.

Soltem os leões famintos para sucumbir o forasteiro interiorano, sem amparo, sem ninguém, um brasileiro perdido em nosso labirinto de concreto.

São pensamentos que transitam em meu ser. Percebo a presença da Lua iluminando a trilha de volta aos desassossegos. Levanto e contando até dez, reproduzo meus passos como uma nova tentativa. Pego a pasta sem olhá-la e num gesto mecânico, vou desaparecendo como alma penada em lendas folclóricas.

Fugi para o mundo, respirei os cantos enfermos dos malogros, parei em inúmeras estações, corri e meditei. Hoje o dia vai fechando como a luz da minha casa. Que já não existe, foi-se como mal-agradecida. Continuo o trabalho a luz e velas. Dedos movendo-se desesperadamente pelo estômago.

Longe de tudo que simboliza, cansaço reflexivo nos emaranhados de uma grande capital. Aos poucos, sou devorado pela condição humana.

A lei do mais forte em voga em plena pós-modernidade.