A banda

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Esses dias, ao escutar a música “A banda”, de Chico Buarque, naquele trecho em que diz: “Estava à toa na vida, o meu amor me chamou, pra ver a banda passar cantando coisas de amor…”, lembrei um episódio recente na minha família. Não tenho filhos ainda, mas meu instinto paternal aflora quando estou com meus três sobrinhos: um rapaz de dezenove anos, estudante universitário, um adolescente de treze e uma menina de sete anos. Dias atrás, acompanhei o menino de treze, que estava feliz e confiante, regulando sua “caixa”, um instrumento musical parecido com o tarol, para tocar na banda do Instituto Estadual de Educação Odão Felippe Pippi.
Era interessante ver o jovem cheio de planos para estrear no desfile estudantil, na Rua Marechal Floriano. Falava o tempo todo da banda, a disciplina nos ensaios, a parceria com os colegas e a forma cuidadosa como transportava seu instrumento de percussão. Ele, que tinha algumas restrições em ir à escola, principalmente pela disciplina de matemática, se tornou mais presente em sala de aula, passando a gostar do educandário e ter orgulho de fazer parte da banda do instituto.

Protesto

Ao ver o empenho do meu sobrinho adolescente na banda, lembrei a frustração dos estudantes da Escola Técnica Estadual Presidente Getúlio Vargas que fizeram protesto em frente à instituição para poder desfilar. A direção, sem qualquer consulta à comunidade escolar, decidiu não participar do desfile, em apoio à greve dos professores no Estado. Ato compreensível, mas que não foi justo. Não pensaram no sonho das crianças e adolescentes que queriam desfilar diante da multidão.

Tergal Gabardine

No meu tempo de adolescente não participei da banda. Faltou oportunidade. Mas recordo os dias frios de setembro quando acontecia o desfile estudantil. Todos os anos, nessa época, a mãe separava do guarda-roupa uma calça de tergal gabardine de cor azul marinho e uma camisa branca. O corpo franzino tremia com o clima da estação. Mesmo assim, estava lá firme e apreensivo para desfilar na Marechal Floriano. O regente da banda dava o sinal, os tambores, os bumbos, os surdos, os taróis, as caixas e os pratos ditavam o ritmo e os estudantes da escola, a passos firmes, desfilavam para o público que saudava os jovens com salvas de palmas. Naquela hora se esquecia do frio; o calor humano da multidão nos aquecia. Cada aplauso fazia o coração palpitar com orgulho, nos fazendo se sentir homens adultos, desfilando na passarela da vida.