Anjos da paz

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Sem dúvida alguma os três grandes ícones da ética na política mundial são Mahatma Gandhi, Martin Luther King Jr. e Nelson Mandela. Ouso nesta crônica contestar Nicolau Maquiavel, que no livro “O Príncipe” afirmou a inexistência da moral na política, explicando que “os fins justificam os meios”. Esses três homens se contrapõem a essa tese, pois revelaram a possibilidade de se fazer política com princípios, tendo o pacifismo como um instrumento na luta pela igualdade e melhores condições de vida aos seus povos. Os três homens transcenderam o tempo e permanecem vivos na memória de todos, num mundo onde, muitas vezes, as diferenças entre povos fogem o campo da diplomacia e são decididas com o uso de armas. Nada mais justo reconhecer esses símbolos do pacifismo que fizeram revoluções sem derramamento de sangue.

 GANDHI
Com seu jeito franzino, Mahatma Gandhi liderou o movimento de independência da Índia que pertencia na época à coroa britânica. O jovem advogado libertou seu povo de forma pacífica. Apenas gestos e o silêncio contestador seguindo o princípio do Satyagraha – método da não-agressão que promoveu uma desobediência civil ordeira que garantiu posteriormente a soberania da Índia.

LUTHER KING
O pastor Marter Luther King Jr. foi outro exemplo de ativista que atuou dentro do pacifismo. “I have dream” – “Eu tenho um sonho”. Com essa frase, King fez história na luta por uma sociedade mais justa, semeando esperança e a “sede” de justiça e liberdade nos povos oprimidos. Assim como Gandhi, seu lema era a manifestação sem violência que lhe garantiu o prêmio Nobel da Paz, em 1964. Suas palavras foram mal compreendidas por aqueles que não aceitavam mudanças. O homem que pregava o amor ao próximo, defendendo ativamente os direitos dos negros, pagou um alto preço pelo seu sonho de igualdade ao ser brutalmente assassinado em Memphis, no Teneseee, em 1968.

MORTE DE MANDELA
O último grande ícone mundial do pacifismo, Nelson Mandela, nos deixou na semana passada, aos 95 anos de idade, em Pretória, em decorrência de uma infecção pulmonar. “Madiba”, como carinhosamente era chamado, se constituiu num grande símbolo na luta contra o regime de segregação racial, conhecido como Apartheid, vigente entre 1948 e 1993. O líder político foi preso por defender a igualdade de direitos, entre negros e brancos, perdendo boa parte de sua vida confinando numa cela. Pelo clamor do povo foi libertado e conduzido ao comando da África do Sul. De forma serena e sem rancor, ao assumir o poder, se uniu às lideranças políticas brancas (que o prenderam anteriormente) para dar um novo rumo ao país, no sentido de construir uma sociedade mais justa. Cumpriu apenas um mandato, na presidência do país, demonstrando total desapego ao poder, deixando aos seus sucessores a incumbência de dar continuidade às transformações necessárias. Nos últimos anos, doente e frágil, Mandela seguiu sereno a sonhar com uma sociedade justa e igualitária, servindo de exemplo num mundo desigual, repleto de injustiças e corrupção.
Resta apenas a imagem viva de Mandela na memória de todos a ecoar gritos por liberdade, igualdade e justiça, feito rugidos de leões nas profundezas das savanas africanas a contemplarem o anjo negro rumando ao infinito a se despedir com um belo sorriso.