Meninas de cabelos alaranjados

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Na infância – esse momento especial – os sonhos e a imaginação comandam os sentidos. Nessa época, as preocupações são poucas, a não ser aquelas motivadas pelas peraltices cotidianas como o banho de chuva não autorizado e a mãe a esperar em casa com a chinela na mão. No mais, tudo é aventura. Lembro-me dos meninos serpenteando as estreitas trilhas rumo ao banho no lago, das pescarias de muçuns nos igarapés, ou até mesmo da degustação do arroz com pardais à beira do mato.

Mas a lembrança mais marcante, sem dúvida, é a das meninas de cabelos alaranjados, as novas moradoras do bairro. De origem germânica, tinham olhos azuis e faces alvas enfeitadas por sardas. A presença delas no terreiro fascinava a garotada. Pareciam as ninfas do bosque do deus Pan a brincar com os bambolês, pulando amarelinha ou jogando cinco marias. Apaixonados, alguns até abandonaram certos hábitos comuns para idade, a fim de conquistar a condição de homens crescidos perante as pequenas musas. Muitos não fizeram mais xixi na cama, enquanto outros se exibiam no grupo, estufavam o peito, mostravam imperceptíveis fios de bigode.

No auge dos meus cinco anos, também decidi ser adulto para tentar chamar a atenção da menina menor. Foi um esforço difícil. Uma vez ou outra, corria para casa. Apenas uns minutos, mas o suficiente para retornar ao terreiro e observá-las, e essa ação passou a se repetir, várias vezes. Minha mãe intrigada seguiu me até o quarto. Porém, nada encontrou. Desapareci sem deixar nenhum rastro. De repente, num passe de mágica, surgia apressado no corredor.

Curiosa, decidiu verificar o que acontecia e escondeu-se atrás da porta. Ao entrar novamente no quarto para cumprir o ritual, o mistério se desfez. Surpresa, ela abriu o guarda-roupa e flagrou-me chupando bico. Que grande susto levei! Envergonhado chorei muito e ela, com aquele sorriso macio de mãe, prometeu não revelar o meu segredo.

Por algum tempo permaneci naquela rotina até a família das meninas de cabelos alaranjados mudar de cidade. Descobri, então, o significado da palavra saudade. No alpendre, entre soluços e lágrimas, lembrava daqueles brilhantes olhos azuis sorrindo para mim.