O Barbeiro

0
120

Depois de deixar a vida de agricultor no interior, Luiz Devicari, meu avô, veio a Santo Ângelo, onde começou seu ofício como barbeiro. Localizada na esquina da Avenida Sagrada Família com a Rua São Nicolau, o estabelecimento era ponto de encontro de senhores do bairro e de diferentes distritos da cidade que vinham cortar cabelo e fazer a barba.

O ambiente simples possuía uma cadeira de barbeiro alta e giratória. Na parede um espelho para visualizar o corte e um relógio para o cliente não perder a hora. O chão era de piso verde e ao redor da sala havia cadeiras para os senhores aguardarem sua vez.

Na minha infância gostava de ir à barbearia escutar as conversas dos adultos, assuntos do dia a dia na cidade e os causos da roça, o ataque das pacas no milharal, o tatu que escapou da armadilha durante a caçada, os pinheirais infestados de caturritas e o trabalho das camponesas que ainda lavavam roupas nos rios. Aquele mundo me parecia estranho, mas ao mesmo tempo me causava encanto. Afinal para um guri que morava na cidade eram cenas que despertavam a imaginação.

Sempre tinham engraçadas anedotas que algum senhor contava sentando na cadeira, enquanto o nono deslizava o pente entre as cabeleiras surradas de poeira e sol para traçar a afiada tesoura, derrubando tufos de fios capilares ao chão. As suas mãos rápidas delineavam uma nova forma aos cabelos. Depois da tesoura era a vez do cortador de cabelo manual para o acabamento na nuca e nas costeletas. No final se colocava um talco e na sequência se espanejava para tirar o excesso do pó branco.

BARBEARIA

Na barbearia do nono também vinham fazer a barba clientes do Distrito de Santa Tereza, Comandaí, Rincão dos Mendes e outras localidades do interior. Ficava atento observando Seu Luiz a espalhar a espuma do creme de barbear sobre o rosto de algum cliente barbudo, deixando tudo branco, parecendo um grande merengue. Logo após, meu avô pegava a afiada navalha e com destreza a deslizava sobre a pele, retirando a barba e deixando a epiderme bem lisa. As pessoas chegavam de um jeito e saiam de outro. Pareciam mais asseadas quando deixavam a barbearia.

CORTE CADETE

Certa vez, teve uma infestação de piolho na Escola Estadual Padre Diogo Haze, no Bairro Pippi. Todas as meninas, com seus cabelos compridos, tiveram que lavar os cabelos com preparado de vinagre, enquanto os meninos rasparam a cabeça de modo a evitar a proliferação do pequeno parasita. Num primeiro momento, ponderei, me negando a fazer o chamado corte cadete. Tinha a cabeça grande, não ficaria bem. Mas o Seu Luiz sempre tinha uma frase para convencer os netos. “Corta Cristiano! Corte cadete é a última moda. As meninas adoram jovens com corte militar”. Aquelas palavras bastaram. Sentei na cadeira, entusiasmado. A empolgação durou pouco. Vi os cabelos caindo ao chão e ao mesmo tempo surgir uma careca reluzente, me obrigando a usar um boné. Lembro-me, até hoje, as gurias, cheirando a vinagre, sorrindo em tom de deboche, a observar a molecada calva, brincando. Enquanto na barbearia, Seu Luiz raspava a cabeça de outros meninos, ansiosos, a esperar pelo inevitável.