Pequeno Giba: o dono da bola

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Desde cedo, o pequeno Giba se mostrou autoritário.

– Se eu não for o centroavante, ninguém joga! A bola é minha e só participa da pelada quem eu escolher! Entendido!? – exclamava com autoridade aquele menino feio. A gurizada, sem alternativa, acabava aceitando a imposição. Contrariar o dono da bola significaria não ter pelota para jogar. Isso era uma tragédia aos meninos da Vila Hortência, pois o futebol representava o único divertimento nos dias de sol quente.

A permanente submissão aos caprichos de Giba, porém, começou a encher a paciência da turma. O moleque a cada dia ficava mais ousado.

– Zé Beiço, deu pra ti! De hoje em diante não joga mais. Aqui não tem lugar pra goleirinho metido a besta, que defende todas! – sentenciou inconformado, por não conseguir marcar gol no adversário.

Em outra oportunidade Giba impediu o Neco de participar da partida, porque este não lhe dera, de forma “espontânea”, a figurinha de Rivelino.
Giba ditava estranhas regras. O maior temor dos meninos era quando ele abria vaga na linha para a sardenta Chiquinha. Como namoradinha do dono da bola tinha seus privilégios e ai daquele que ousasse driblar ou defender a bola chutada pela guria. Nessas ocasiões, o goleiro precisava dar um jeito de a pelota entrar no gol, para satisfazer o desejo do pirralho. Caso contrário, o “infrator” saía da partida.

Dito Papagaio, o mais fiel escudeiro de Giba, atuava como gandula particular, não importando se a bola estilhaçasse a vidraça dos prédios da vizinhança. Acontecido o incidente, lá estava Dito para ouvir os reclames e palavrões do morador. Dito Papagaio tinha esse apelido porque repetia tudo o que Giba falava, faltando apenas o currupaco. Chegava a ser cômico ouvi-lo: – Eu determino que seja desse jeito – dizia Giba – Eu determino que seja desse jeito – repetia Dito. Os meninos da Vila Pippi até lhe apelidaram de gravadorzinho; alcunha que entristecia o piazito.

Nas noites de luar, a garotada saia à caça de vaga-lumes. No momento da partilha, Giba sempre ficava com os insetos maiores e mais brilhantes, sem qualquer contestação. Os garotos, submissos e calados, tinham receio de uma possível retaliação por parte dos fiéis escudeiros de Giba: Fraguinha, Gigi e Dito.

Certo dia, resolvi contestar aqueles absurdos. Por possuir uma personalidade pequena, o guri me afastou da turma. Apesar da atitude irreflexiva, lhe desejei boa sorte. Conhecê-lo foi importante; suas decisões tortas me serviram como aprendizado.

Giba cresceu, mas as ações mesquinhas permaneceram, fazendo com que ele, a cada dia, aumentasse sua pequenez diante dos outros. Talvez algum dia aprenda que a liderança é algo espontâneo e não se conquista com o uso da força. Ao déspota a vida reserva o isolamento, porque pouco a pouco as pessoas caem na real e abandonam o barco, deixando o “Napoleão” solitário, às traças, a contar moscas.