Tem formiga branca no açúcar

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Minha nona ao desconfiar de alguma coisa sempre dizia: – Tem formiga branca no açúcar! A expressão era incompreensível para um menino de apenas seis anos. Ao crescer observando o cotidiano de uma sociedade de moedas a estipular valores e conceitos, entendi tudo: certos comportamentos humanos assemelham-se aos das formigas brancas que, de pote em pote, visitam muitos açucareiros até esvaziá-los. Algumas ingênuas pela inexperiência da vida; outras perversas por natureza.
Geralmente, à noite, disfarçada em becas e perfumarias, essa criatura alva costuma deixar o formigueiro da periferia para observar vitrines de grifes, antes de atacar os fartos açucareiros importados com rodas de magnésio e vidros fumês. A regra é única: com açúcar e sem afeto, contrariando a canção de Chico Buarque.
Um amigo, certa vez, cruzou no caminho da mais perversa delas. Ousada, a criatura usava as armas disponíveis para nutrir-se até o último cristal do pote, ao passo que o menino, fascinado, contemplava o remexer dos quadris da dita. Miúda e pequena revestia-se de cascas arbóreas ou determinadas espécies de plantas trepadeiras para ocultar o imenso vazio interior; repleto de indiferença. Nela, o açúcar das doces palavras proferidas num leito de gozo transmutava-se num ácido e azedo vinagre, após um infrutífero telefonema no celular. Enquanto isso do outro lado da linha, lágrimas. Ao mesmo tempo bela; horrorosamente fria. Talentosa na matemática aprendeu desde cedo com a família a contar vintém e a calcular a direção do próximo banquete.
Nos encontros e desencontros da vida, as pessoas acabam recebendo a inesperada visita dessa espécie, que entra sem pedir licença e rouba os cristais da alma, deixando um imenso vazio em sua presa.
Encantadora formiga branca, com seu apetite insaciável não percebe o destino fatídico: acabará submersa numa xícara de chá, enquanto outras gerações de formiguinhas seguem em direção aos açucareiros e meninos choram pela falta de açúcar no café da manhã.