Um olhar na escuridão

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Ao acessar o site do Correio do Povo, na manhã de domingo, me deparei com a notícia de um jovem de 20 anos, viciado em crack, preso pelo assassinato do padrasto, em Vacaria. A vítima se recusou a entregar o dinheiro ao dependente químico que pretendia comprar drogas. Revoltado com a negativa desferiu golpe de faca no pescoço do homem e na sequência, irado, partiu para cima da mãe, ferida em várias partes do corpo.

O crime aconteceu no Bairro Vitória, uma denominação que soa como ironia por abrigar mais um dos muitos jovens derrotados por um vício que se alastra pelo país, transformando em vítimas não apenas os usuários de drogas, mas também suas famílias. Hoje, é comum vermos na televisão pais acorrentando filhos num gesto extremo de desespero. E o mais preocupante é que o número de usuários de crack vem aumentando a cada dia. Dados do Ministério da Saúde revelam que o Brasil tem atualmente mais de 360 mil viciados.

O BARATO QUE SAI CARO
A expressão “o barato que sai caro” se adequa bem aos usuários de crack. O preço da pedra é acessível se comparado a outras drogas. O drama maior é o efeito de curta duração que exige do usuário o consumo constante da pedra e o vício acaba se tornando oneroso. Quando os recursos terminam, o viciado começa a vender objetos da sua casa ou então parte para a violência contra sua família ou até mesmo nas ruas, numa ação desesperada para sustentar o vício.

OLHEIRAS E PELE AMARELA
O drama do crack no país se repete em nossa cidade, embora em escala menor. Circulando nas ruas podemos ver jovens com olheiras e pele amarela pitando cachimbo, inalando aos pulmões toxinas nocivas que causam lesões no cérebro, degeneração nos ossos, problemas cardíacos e outras sequelas que podem levar a morte.

PEDRA DA MORTE
Um tempo atrás, em Santo Ângelo, a comunidade se mobilizou para mudar a nomenclatura do crack como a “pedra da morte”. A medida louvável seguiu sugestão da subseção local da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), presidida na época pelo advogado Paulo Bender Leal. O projeto virou lei e muitas pessoas comemoraram a aprovação. Enquanto isso, a fumaça dos cachimbos de crack seguiu “aromatizando” nossas ruas, esquinas e praças.
Na semana passada, ao circular pela Praça do Brique no retorno para casa, visualizei um jovem de olhos cerrados deitado sobre o banco de concreto. Em uma das mãos, miúdas e judiadas, segurava o pequeno cachimbo. As pontas dos dedos estavam queimadas, enquanto sua face esquálida revelava um sono profundo e cansado de quem projetava um olhar na escuridão.