Viver

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Confesso: por muito tempo não soube viver a vida. Saía pouco. Raramente passeava e, na maioria das vezes, ficava no quarto, lendo livros ou assistindo filmes na televisão.

Tive que passar dos 30 e conhecer a minha noiva para aprender a viver a vida. No começo da relação surgiram as diferenças. Estava acostumado a ficar em casa; enquanto ela, que fazia escavações arqueológicas no exterior, trazia em seu passaporte registros de viagens pelo mundo: Israel, Egito, Jordânia, no Oriente Médio; Holanda, Inglaterra, França, Alemanha, Suíça, Itália e Espanha, na Europa; Uruguai, Argentina e Paraguai, na América Latina. Gostava mesmo era de ouvir os relatos de suas viagens ou até mesmo provar as receitas culinárias que aprendera nesses países. Mas quando o assunto era viajar. Eu me calava, pois toda minha experiência turística se resumia a viagens a poucos balneários do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

SEQUÊNCIA DE CAMARÃO

Com muita insistência, ela me levou a Porto Alegre para conhecer sua família. Depois, Florianópolis, na Lagoa da Conceição, onde conheci a saborosa “sequência de camarão”. A experiência foi interessante e, por outras vezes, fomos à grande ilha de Santa Catarina rever o verde da mata atlântica e as pequenas embarcações levando turistas a passeios na lagoa e as casinhas coloridas espalhadas nos serros no entorno da lagoa.

Nessa sequência de viagens, conheci também Posadas e as ruínas de San Ignácio Mini, na Argentina, onde provei vinhos e alfajores. Também passamos pelo Paraguai, quando conheci as ruínas de Santíssima Trinidad – com estátuas de imponentes santos dentro da igreja de pedra, ossadas de caciques e esculturas com influência barroca.Aos poucos peguei gosto por viagens. Tanto que até mesmo na cidade, não repetimos um dia fazendo as mesmas coisas. Na semana passada, por exemplo, almoçamos num parque, na sombra de um cinamomo. Outro dia, jantamos lambaris pescados no Rio Santa Tereza, com a família. Também visitamos os barracões das escolas e revemos vários amigos. Aos poucos aprendi a viver a vida, pois o tempo passa rapidamente. E o que se perde do hoje, no amanhã não se recupera. Nesse mundo sempre com novidades tecnológicas, percebo que as pessoas parecem viver em gaiolas, presas dentro de si mesmas. Muitos casais nem sequer circulam de mãos dadas nas ruas. Andam lado a lado, mas como se fossem estranhos, concentrados nos seus tablets, iPhones, iPhods, e aparelhos celulares, tão distantes entre si, vivendo como desconhecidos, a procura de algo, num imenso vazio interior. Às vezes penso que o homem está desaprendendo a viver à vida, cada vez mais escravo da máquina. Isso, sem dúvida, é perturbador. Ao encerrar essa crônica, percebo ao meu lado um semblante humano com um belo sorriso; um sorriso num convite para navegar…