100 metros rasos

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Há duas semanas não ocupo esse espaço no Jornal das Missões.

Os motivos são vários: com pouco talento e muita mentira, poderia elencar no mínimo dez e me passar por vítima sem qualquer pudor e muita cara de pau.

Mas não me apetece esse afazer, embora invencionices de toda sorte façam parte do dia a dia de todos.

O que me cabe falar é sobre o tempo – esse item tão escasso na atualidade e que dá um tapa nas nossas ventas toda vez que o relógio desperta ou mais um mês se vai.

Parece que vivemos correndo e correndo – ou melhor: não apenas “parece”, pois de fato é  assim que passamos pelas plagas desse século.

Corremos pelo estudo, pelo emprego, pelo amor.

Corremos pelas compras, pelos vícios, pelo prazer.

Corremos por atenção, por reconhecimento e por aquilo que julgamos ser um lugar ao sol.

Mas no pano de fundo de tantas pernas alvorotadas, corremos pelo quê?

Será que existe algo genuíno sobre nós no final dessa trajetória?

O que estamos perdendo?

Soamos como uma geração desatenta: com tanta informação, com tantas imagens, apenas surfamos olhando para a tela do celular e mais nada – sempre submissos ao risco de tropeçar na primeira pedra do acaso que despontar em nosso caminho.

Nossa consciência, mirrada pelo sufoco do excesso, agarra qualquer marco que julga minimamente válido e ali finca morada – ignorando todo o resto unicamente porque deve continuar seu rumo sem deter a menor noção de qual destino está tomando.

Seja na política, seja nos relacionamentos, seja nos comentários cotidianos, seja no que for, é exatamente essa desatenção que nos constrói diariamente nesses anos zero/zero – e acabamos erigindo, sem muito esforço, uma civilização na qual a preguiça reflexiva se mostra

como principal característica.

Talvez por conta disso tantos sonhem com um lugar tranquilo – uma casa à beira mar, um rancho quieto nos confins do mundo ou simplesmente uma sacada na qual possa, sossegado, observar o movimento dos cães na rua, crendo cegamente que, dessa forma, aquele tempo anteriormente perdido, misteriosa e repentinamente, irá nos mostrar seu verdadeiro  significado.

Porém,perdidos mesmo estamos nós nessa maratona incessante – e quanto mais corremos menos nos conhecemos, sucumbindo manhã após manhã frente a todas as obrigações que essa realidade direciona aos nossos desejos.

Vale a pena investir em um projeto dessa ordem?

Vale o prêmio buscar algo que não se sabe o que é e viver, nesse entretempo, apenas à base de drops de felicidade para suportar o dissabor e os grilhões da maioria das horas?

Pelo quê e por qual motivo, afinal, acabamos por nos tornar seres que se comportam dessa maneira?

Não tenho resposta e no momento não sou a pessoa mais indicada a buscá-la – e para falar a verdade, acho que tudo quanto escrevi acima não passa de uma desculpa por não ter  reenchido essa pequena e humilde coluna nas últimas duas semanas.

Ser humano é assim: buscar responsáveis por todo o lado enquanto todos os indícios apontam unicamente para o seu umbigo – e de tanto pensar em corridas, acabar por escrever um texto/interrogação tão curto quanto uma disputa de 100m rasos.