18 + 10 = 28 (Notas sobre 17 de agosto de 2012)

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17 de agosto de 2012: completo vinte e oito anos. Mas digo: não gosto de festas de aniversário. Não gosto de gente cantando em minha homenagem. No máximo, um trago com os amigos e olhe lá. Mais que isso seria demais. Pra quê compartilhar com os outros minha troca de idade? Eles certamente sentirão um prazer mórbido em cantar “parabéns” pra mim. Já repararam isso? O que você faz quando cantam “Parabéns pra você”? Fica lá, com aquela cara de tacho, sem saber o que falar. O que é mais correto: cantar junto e bater palmas (feito uma foca no cio) ou ficar rindo pra todo mundo e rangendo um “obrigado” entre os dentes? Simplesmente não sei. É muito constrangimento.

Deve ser por isso que detonei meu aniversário de cinco anos. Sim: essa é uma história real. Meus pais resolveram fazer meu aniversário de cinco anos no Clube Comercial aqui de Santo Ângelo. Era a época áurea do clube e até acho que meus pais eram da diretoria. Pois bem: naquela época – sim, podem rir! – eu era fã do Rambo. Pra quem me acha ridículo hoje, isso será um prato cheio, pois o fato é que eu chegava a andar pela Marquês com uma fitinha do Rambo na testa. Podem imaginar isso? Não sei, mas é verdade. Voltando ao assunto, meus pais decidiram fazer meu aniversário de cinco anos no tal clube. A temática, claro, seria o Rambo. Por minha escolha.

Minha mãe alugou trocentos quadros do Rambo pra pôr nas paredes. Fez bolo com cores militares e tudo o mais. Eu achava os militares o máximo. Hoje quero distância disso. Tanto é que nem cheguei a servir o exército. (Ainda bem.) Mas não vêm ao caso as razões. O fato em si, é que uma penca de gente foi convidada pro meu aniversário. Crianças e adultos e tias solteironas com presentes relacionados ao Rambo pro Eduardinho. Eu, claro, estava vestido à caráter. De Rambo. Mas quando vi aquele monte de gente chegando, comecei a ficar agoniado. Olhava pros lados, via aquelas fotos intermináveis de um cara que parecia um ogro musculoso e simplesmente não sabia o que fazer. Minha reação? Corri pro banheiro e fiquei lá trancado, chorando.

Sim, minha gente. Meus pais fazem uma festa tri legal pra mim, gastam uma baita grana e o xarope do Eduardo se tranca no banheiro do Clube Comercial sabe-se lá porquê. Meu avô e minhas tias tentaram e tentaram me tirar de lá. Lembro que eu gritava. Lembro que eu dizia: “não quero sair! não quero sair!”. Chegou uma hora que saí, claro. Não recordo das condições dessa progressão de regime. Sei apenas que encarei aquele pessoal com olhos molhados, meio constrangido com a tira vermelha do Rambo na testa e ouvi um “Parabéns pra você” ser cantado logo em seguida. E qual era o fundo? Um disco da Xuxa! Eis a origem, dirá algum psicanalista de bar, de todo meu ranço com relação ao “Parabéns pra você”.

Mas estão todos errados esses sujeitos que formulam hipóteses sobre minha fobia. Mal desconfiam eles que minhas razões são mais profundas. Saberá alguém que minha Tia Débora me deu aos quatro anos, quando eu tinha uma asma terrível, um exemplar daquela história dos três porquinhos? Garanto que ninguém sabe. Lembro inclusive que quando eu tinha cinco anos, sofri um acidente de carro no qual quase morri. Quebrei meu queixo e estourei a jugular. Me salvei por conta dos meus pais e do Dr. Renato Kettner. Enquanto estava no hospital, minha tia pá e tá fazia uns mingaus de maisena pra mim. Eu adorava aquilo. Daí ela, que tinha uns dezesseis anos, falava da Grécia Antiga enquanto eu estava lá, deitadão na cama do hospital, todo podre. De algum modo, a Grécia Antiga sempre terá cheiro de mingau de maisena pra mim.

Até aí beleza. Mas o que isso tem a ver com o “Parabéns pra você”? Absolutamente nada. Não lembro de nenhuma história mais de “Parabéns pra você” satânico. Na verdade, apenas falei essas coisas porque os anos realmente passam e a gente mal percebe o quanto fica velho e velho com o correr dos meses. Agora pouco, duas e tanto da manhã de quinta-feira, me olhei no espelho e me senti um senhor. Um senhor de vinte e oito anos. Isso quer dizer alguma coisa? Com certeza não. Mas o fato é que senti. E tudo o que eu sinto quer dizer alguma coisa. Afinal, senti. Então existe.

O que falar ao final? Sempre acabo qualquer texto curto com sete parágrafos, mesmo que não tenha cumprido essa promessa nas últimas colunas. Mas é coisa antiga. Então é necessário cumprir o ritual, já que semana passada, por exemplo, isso não se deu. Um sacrilégio! Mas parece que já falei tudo. Parece que meus dedos esgotaram os assuntos e apenas querem sentir o Miles Davis que o computador chia. Falarei sobre o quê? Preencherei linhas como? Poderia apenas digitar vogais. Ou poderia somente digitar consoantes. Mas vou por um caminho novo. Vou revelar meu maior medo pra esse ano que logo findará. Sabem qual é? A Simone lançar um novo CD de natal. Isso sim seria um prelúdio nefasto para o fim do mundo em 2012. Nenhum deus (com “d” maiúsculo ou minúsculo) suportaria aquela voz de gata engasgada sem pensar em demolir nosso planetinha.

Portanto, tomemos cuidado. This is it.