2013-2016

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Junho de 2013 gritou por mudanças no sistema político e econômico. Foi um movimento multifacetado, mas de cunho predominantemente progressista. Ocorre que em 2014, o Congresso eleito trouxe um feitio nitidamente conservador. Se as ruas propuseram B, o sistema se reorganizou como A e, basicamente, não mudou, mas se fortaleceu – muito por conta da deficitária democracia representativa brasileira. Com o cenário pós-Dilma, isso se torna absolutamente claro: diante de uma crise econômica que contabiliza altos índices de desemprego, o poder institucionalizado, utilizando-se do medo e da insegurança da população, pretende, unilateralmente, colocar em prática uma nebulosa reforma previdenciária e trabalhista a partir do argumento falacioso de que se trata de uma saída para a crise.

A intenção velada das reformas, porém, é legalizar o “precariado”: tornar justificáveis do ponto de vista legal situações de trabalho precárias, vendendo essa saída como a única possível em um contexto de crise. Não se fala em reforma tributária, em auditoria da dívida pública e nem mesmo em reforma política substancial, mas apenas em mudanças que visam atingir garantias individuais sedimentadas. Não se fala em tributar dividendos ou grandes fortunas, mas se diz que é a população da classe média e baixa que tem de abrir mão de direitos em prol do bem-estar econômico do país. Ou você acha que alguém que está no topo da pirâmide social será afetado por essas mudanças?

O ataque à previdência social, nesse sentido, apresenta um viés interessante, pois se trata de um ataque ao princípio da solidariedade. O que tal princípio diz? Que você contribui com o INSS não somente para que você usufrua daquele fundo no futuro ou em caso de enfermidade, mas para que uma viúva possa sobreviver ou um deficiente físico inapto ao trabalho possa ter a mínima dignidade em sua vida. Quando se ataca tal princípio, atenta-se contra o próprio fundamento da sociedade – o que se torna relativamente fácil do ponto de vista discursivo considerando o cenário de devastadora sanha competitiva impulsionada pela fé cega no mercado. Traduzindo: se você deixa as pessoas mais competitivas, deixa as pessoas mais egoístas e mais propensas a abdicar do princípio da solidariedade, afetando, assim, a própria coesão social básica que se encontra solidificada em tal princípio.

Outra consequência desse fenômeno é a gradativa redução do “pensamento de classe”: os cidadãos não mais se sentem parte de um grupo que exerce o mesmo ofício, por exemplo, o que faz com que a organização trabalhista na forma de sindicatos reste prejudicada. A “massa” não sabe que é “massa” – ou não quer saber, pois crê que o mero individualismo, engrossado pela crença na “meritocracia”, dará conta do recado. E o que o Governo Temer pretende fazer para dissolver mais ainda esse pensamento já depredado? Aprovar a possibilidade da terceirização da atividade-fim para as empresas, com a mesma desculpa de que isso é necessário para “superar a crise”.

Em um quadro com esses contornos, a cereja do bolo é a instauração do binarismo político, o qual, no Brasil, trata-se de “ser PT” ou “anti-PT”. Isso faz com que a população, frustrada por pouco conseguir interferir na política, direcione sua raiva não às instituições, mas em relação às pessoas do seu convívio ou na direção de desconhecidos nas redes sociais. Não se odeia o sistema que proporciona toda essa tragédia, mas se odeia quem está na mesma posição social que eu e é adepto de uma ideologia ou de uma visão de vida difusa da minha. O vizinho se torna meu inimigo – mesmo que eu e meu vizinho tenhamos exatamente os mesmos problemas.

Por parte da imprensa, na maioria esmagadora dos casos, não há estímulo ao pensamento: o que há é o comércio de “notícias fast-food”, tratando de fatos importantes como quem vende um creme dental – e o cerne da questão, como sempre, vai sendo deixado cada vez mais de lado, insuflando mais e mais esse simulacro de democracia no qual vivemos. Enquanto o sistema político, englobando também o sistema midiático e educacional, não estiver efetivamente sob o controle de um padrão democrático participativo e racionalmente embasado com foco no interesse público, ultrapassando a simplista democracia representativa, estaremos fadados a essa condição de escravos apaixonados pelas suas correntes.

A concentração de riqueza fomenta a concentração do poder político que, por sua vez, trabalha para que se perpetue a concentração de riqueza. Para aqueles que concentram a riqueza, o que vale é a sua intenção de concentração, não a vontade da maioria – e eles farão o máximo para que a maioria siga uma vontade estranha ao que lhe interessa e nem se dê conta disso. A única saída seria a maximização da democracia – ou seja: alternativas democráticas que não sejam meramente atreladas à democracia representativa, mas tragam à tona uma abertura para práticas de democracia direta.

Espero que desse caos, alguma luminosidade do tipo possa brotar.