2013: “o ano depois do fim”

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“O pré-requisito para a existência de uma rodoviária é a sujeira”, diz meu amigo Julian Matte Dutra. Segundo o Julian, em sua teoria/fábula acerca do assunto, uma vara de porcos é largada no prédio de qualquer rodoviária antes do seu funcionamento. Após uma semana vivendo no local, os porcos são retirados, desde que fiscais devidamente preparados concluam que o combo de mau cheiro + fuligem suína + coliformes fecais esteja devidamente instalado. Claro que o Julian falou isso após algumas Buds. Mas não é de se duvidar da sua hipótese, a qual me parece plenamente válida ao falarmos da estação rodoviária de São Leopoldo, por exemplo. Quando tenho que descer lá, imagino o chilique que teria um sujeito como Howard Hughes – aquele personagem interpretado pelo Leonardo DiCaprio em “O Aviador” do Scorsese.

Mas teria como ser diferente? Imagino que não. Se viver é, basicamente, viajar, impossível pensar essa condição abdicando da sujeira. Já tive meu tempo de paranoia nesse sentido. Teve uma época em que fincava desinfetante e detergente em tudo quanto é canto de um apartamento no qual morei. Se não me livrava dos ácaros e das bactérias, ao menos os perfumava. Não faço ideia da origem desse comportamento. Mas certamente encontraria algum resquício inconsciente se me desse ao trabalho de vasculhar meu passado. Ocorre que esse calor me tira a paciência para qualquer atividade intelectual mais elaborada, de modo que prefiro ficar com a explicação rasa de que hoje não sou mais assim.

Esse lampejo, aliás, me coloca na linha de frente do final de ano. Por quê? O que mais notamos nesse mês são dois tipos de sujeitos, cada qual expelindo uma personalidade específica: o revisionista e o projetista. É fácil identificá-los e diferenciá-los. Enquanto o revisionista fica pesando as pitangas pelo que fez ou deixou de fazer no transcorrer do ano que chega ao fim, o projetista elabora uma lista com tudo o que deseja conquistar no ano que logo iniciará. Não lembro de ter conhecido alguém que seja uma soma de tais personalidades. Negócio, nesse campo, é 8 ou 80, ao que me parece. Se levar em conta minhas características pessoais para me adequar a uma ou outra fôrma, diria que sou mais revisionista que projetista, já que, embora jamais abdique de potenciais futuros que vejo viáveis e possíveis, me parece inválida qualquer listagem que queira demarcar o amanhã a partir dessa consciência vaga que temos sobre quem somos hoje.

Acho que é por isso que me irrito com o seguinte jargão: “ano novo, vida nova”. Vida nova uma ova! O que muda é apenas o calendário. Claro que existe todo um fator simbólico ao redor do troço. Tem até gente que usa calcinha vermelha para “chamar amor” para o próximo ano – sem contar os pulinhos em ondas e o lixo que aparentemente sacia a sede e a fome de Iemanjá. Nada contra, mas o tempo em si, esse que sentimos ao comparar nosso rosto de dez anos atrás com nosso rosto de agora, nada tem a ver com datas ou minutos. Pelo contrário, tem a ver com a pele (essa embalagem que carrega seu bucho e seus ossos de um lado para o outro). São as marcas da nossa pele que contam a nossa história. Eu, por exemplo, trago uma cicatriz no queixo que diz muito sobre mim. Outra hora falo da procedência da marquinha. Mas com ela aprendi que jamais podemos pegar atalho em um banhado em pleno Carnaval.

Mas daí fica a pergunta: se não adianta tecer planos e objetivos (ou aquilo que os caras da motivação chamam de “metas”), adianta o quê? Não sei se tenho a resposta, mas acho o seguinte: adianta construir um projeto de vida. A construção de um projeto de vida implica na constante responsabilidade que direcionamos para algumas questões primordiais que falam exatamente daqueles que somos. É preciso um mergulho profundo em nós mesmos para descobrirmos nosso projeto de vida. O triste é que vivemos em um século no qual isso pouco importa. Evidências? Se os adolescentes estão mais preocupados em fazer uma faculdade “que dê dinheiro” que um curso que efetivamente diga das suas aspirações, de que projeto de vida estamos falando? Ora, é óbvio: de um direcionamento existencial que encontra no fator monetário seu início e seu fim. Considero complicada essa postura – chegará o momento em que a pessoa olhará para trás e dirá: “e daí?!”. Entendeu? Sei que sim, de maneira que encerro aqui esse parágrafo.

Mas não me leve tão a sério. Como bom revisionista, o caráter ranzinza está sempre presente em mim. Muitas novidades, quer boas quer ruins, certamente virão no próximo ano. Você poderá abrir um negócio ou encontrar alguém que julgue ser o amor da sua vida. Também existe a possibilidade de você sair para comprar pão e ter uma bigorna da Acme amassando suas tripas no asfalto – não esqueça disso. Mas vamos tentar ver as coisas pelo lado bom e pensar que embora nunca possamos mudar totalmente o rol de erros e acertos que nos constrói, sempre existe a viabilidade de ressignificarmos as concepções que temos de nós mesmos, dos outros e do mundo, de forma que uma efetiva mudança detém plenas chances de surgir na virada do ano.

Para terminar essa bagaça, gostaria de deixar algo bem sublinhado. A vida não é um grito de gol, como diz aquela chamada da RBS TV. Sabe o que a vida é? Um grito de gozo. O orgasmo fala mais sobre nós do que podemos imaginar. Se fechamos os olhos nos momentos derradeiros do prazer, insertos unicamente em nosso mundo, denotando um individualismo de impossível desvio, ao abrirmos as pálpebras e visualizarmos o prazer da pessoa com a qual estamos, algo de sincero e verdadeiro se constrói. Com isso, dá até para esquecer da sujeirada da nossa história e seguir tranquilo no barco da existência. Portanto, que 2013, “o ano depois do fim”, slogan que acabei de criar, seja repleto de prazer e felicidade para você, meu caro leitor.

Mas da próxima vez que passar numa rodoviária, imagine porcos habitando o lugar. Você entenderá.