30 = 20

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Fiz 31 anos há poucos dias. Ouvi pessoas falando que sou jovem, tenho a vida inteira pela frente e que tudo está apenas começando – assim como ocorreu quando fiz outros aniversários. Mas não me sinto assim. Certo é que hoje sou bem menos ranzinza do que era há alguns anos, o que nada tem a ver com a possível existência de toda uma sorte de caminhos existenciais crispados em minha frente. Com mais de três décadas de existência, sei, ainda que de modo parco, ao menos o que gosto e o que não gosto – e essa ciência extingue do bolo todo um emaranhado de possibilidades.
Toda escolhaimplica em uma resignação, em uma renúncia – e acredito que, embora não pareça, já promovi em minha vida caminhos suficientes para saber ao menos o que não quero para mim. Quanto ao que quero, não tenho lá muita ciência – mas certamente tem a ver com algo diferente desse tédio que consome o cara quando ele chega na fase adulta. Mas também não quero dizer, que fique claro, que vivo em uma redoma que me desagrada. Tenho meus pais, tenho minha namorada, tenho meus amigos, tenho meu emprego e tenho várias coisas pelas quais me interesso diariamente. Tudo isso injeta em minhas veias uma sensação boa, de que “está tudo bem” – mas ao mesmo tempo, ainda que eu não queira, induz aquele estado de pensamento que me leva ao questionamento sobre os rumos que poderia traçar se tivesse tomado algumas atitudes de forma diferenciada.

Será que estaria onde estou? Será que faria o que faço para ganhar a vida? Será que conviveria com as pessoas que convivo? O fato é que nunca saberei. Como diz Fernando Pessoa, a única morte possível está naquilo que deixamos de viver – e por mais que me esforce em um devaneio ficcional acerca das possíveis consequências da minha vida com caminhos e destinos diversos, tudo não passará de imaginação, pois estarei desenhandoesse cenário a partir dos olhos do presente. Mas então por que o tédio?

É estranha essa tranquilidade que me acossa há alguns anos. Podem falar que é empáfia, falta de gratidão ou pura bobagem – não me importo. Mas sentir que as coisas estão seguindo um rumo sobre o qual tenho algum controle, me causa uma sensaçãono mínimo paradoxal. Por exemplo: sei que minha gastrite pode atingir níveis estratosféricos e até perigosos se eu não parar de fumar. Qual minha atitude? Não paro de fumar: uma escolha, uma resignação. Sei que deveria aprender inglês de forma decente, já que até meu irmão é professor de inglês. Qual minha atitude? Uma preguiça medonha que me impede de acordar de manhã para ir ao cursinho. Será que me acostumei com o ar das coisas e por isso sinto esse tédio, fazendo com que eu somente tenha vontade de me sentar em uma poltrona confortável? Francamente, não sei.

No estalar dos ossos, é possível que seja sintoma da classe média que integro – asfixiada por impostos que não acabam mais e absorta em pequenos prazeres que ousa chamar de “vida”. Talvez, se eu enfrentasse dificuldades verdadeiramente reais, a vida teria outro gosto, outra cor, outro cheiro – e não aquele ranço relacionado às dificuldades do trabalho. Não sei se a maioria das pessoas da minha geração que detém um padrão de vida e uma instrução educacional parecida com a minha passa por isso. Para tirar uma média, tenho os meus amigos, os quais, igualmente, sinto imersos em ilhas, esconderijos contra a insensatez de tudo quanto está lá fora.

Chuck Palahniukfala algo parecido em “Clube da Luta”: fomos criados para pensarmos que nos tornaríamos rock stars – e o que recebemos em troca é essa realidade que nos priva daquilo que nos dá verdadeiro prazer e nos faz arremeter continuamente contra a navalha de uma faca imensa sem chance de sairmos vitoriosos. “É a vida”, diriam os conformados. “É isso aí”, digo eu, entre o sarcasmo e o extremo realismo, lembrando, lamentavelmente, daquela música enjoativa que o Seu Jorge gravou com a Ana Carolina e que em realidade trata de um maníaco que persegue uma jovem e inocente donzela (ao menos frente às ideias interpretativas que tenho dessa canção).

Quem sabe, porém, todas essas palavras estejam erradas e não passem de um devaneio egoísta de alguém que não encontrou seu norte até o momento, de forma que os 30, como costumo pensar, são os novos 20 – e as coisas, como me dizem aqueles que falam que sou novo e tenho um mundo inteiro pela frente, realmente estão no encalço de um mínimo início e um distante fim. Quando eu fizer 40, volto a esse assunto – e tremo em pensar que com as mesmas e idênticas palavras. Viver é persistir num mais do mesmo que deve nos trazer alguma felicidade e principalmente alguma consciência acerca da nossa condição –e talvez apenas isso é que valha a pena.