A epidemia

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Escrever é difícil. Mas quando se trata de ano eleitoral ou pré-eleitoral, é terrível. Você tem tantos assuntos pra tratar que fica tonto. Por isso não falarei nada disso hoje. Ao contrário, contarei uma história que ninguém sabe quando ocorreu. Mas que ocorreu, ocorreu. Fiquei sabendo dela através de um amigo de Ijuí. Ele havia tomado uns três ou quatro martelinhos antes de falar. Pensando bem, um pouco mais que isso. Mas quando a canha entra, a verdade sai. Então acredito nas suas palavras.

Sem mais, portanto, ao relato.

Certa feita houve uma epidemia em uma cidade do interior. Não sei se era perto de Santo Ângelo. Nem sei se era no Brasil, na Argentina ou no Uruguai. Apenas sei que era na América do Sul, o que, em absoluto, não vêm ao caso, pois o fato é que morreram tantas pessoas que o cemitério lotou. O prefeito, tentando achar uma saída para o dilema, resolveu que aqueles que morressem pela epidemia deveriam ser enterrados em covas coletivas. Os vereadores concordaram:

– O prefeito é o pai do povo!

O padre protestou:

– Eles são bons cristãos e não devem ser enterrados que nem boi ranhento!

Mas quando o mau cheiro começou a afetar suas missas, diminuindo gradativamente os fiéis que tinham medo até de sair de casa, mudou de opinião. Se os comerciantes devem zelar pelo seu ponto comercial, os religiosos devem zelar pelo seu ponto divino. Além do mais, se o prefeito havia dito que aquilo era correto, seu dever era endossar a ordem terrestre com um carimbo celestial.

Quem transforma vinho em sangue, também transforma lei em ordem.

– O bom Deus entenderá nossa atitude. – disse então o pároco.

– Graças à Deus! – sorriu o prefeito em prece.

Mas foi aí que surgiu outro problema. A única médica das redondezas era a meia-irmã do prefeito. Só ela era qualificada pra dizer se alguém estava vivo ou não. Mas como ela iria dar conta daquilo sozinha? Era muito morto pra pouca mão. O prefeito coçou a moleira, despachou o padre e mandou chamar a doutora.

– Nossas ruas parecem o purgatório, mana! Precisamos dar um jeito nisso!

Ela prendeu o cabelo e não se fez de rogada. Fora criada na lida de campo e o estudo não lhe amaciara nenhum pouco. Era prática e certeira em tudo o que fazia. Um Gildo de Freitas de saias.

Mandou chamar dois caras fortes que trabalhavam na fazenda do irmão, que ela, aliás, administrava. Disse pra eles pegarem uma maca de campanha no vestiário do Estádio Municipal de Futebol Sete.

– Resolvemos isso pra já! – falou ao prefeito.

Sua metodologia era simples. Cutucava cada corpo que via pela rua com uma taquara afiada. De preferência na barriga, perto das paletas, que é pra doer mais. Se o sujeito resmungasse, estava vivo. Se nada acontecesse, estava morto. Com essa técnica, conseguiu encher uma cova com uns quarenta corpos em pouco tempo. Estava faceira. Mas contam que quando os caras estavam levando pra cova um camarada meio barbudo, ele se remexeu na maca e disse aflito aos carregadores:

– Eu não estou morto!

A resposta foi texana:

– Tá morto sim! Não inventa de contrariar a doutora!

Resultado? Acabou na cova como os outros. Depois de ouvir a palavra “doutora”, aparentemente se conformou com a idéia de que estava morto. Qualquer afirmação dela deveria ser verdadeira.

Tinha firma reconhecida pela sua autoridade, a qual era maior ainda pela bênção do prefeito que, inclusive, queria que ela fosse sua sucessora na prefeitura.

– A primeira mulher no Executivo municipal! – sonhava o gordinho com seus charutos, enrolando a barba grisalha com seu mindinho sem unha. – A mãe do povo!

Além de serem meio-irmãos, a doutora e o prefeito eram do mesmo partido, ainda que alguns desconfiassem que ela não fosse médica e muito menos parente do prefeito. Mas isso, convenhamos, pouco importava. Quem administra uma fazenda e sabe lidar com mortos, tem credenciais pra qualquer coisa. Tudo é uma questão de economia. O importante é manter a limpeza com o menor custo possível, o que é fácil quando se tem o aval de um prefeito, de um padre e de um “DR.” antes do nome. Realidade ou não, pouco interessa. A mentira sempre foi a chupeta da verdade.

– Mas e OK dos vereadores não foi importante? – alguém perguntará.

Resposta fácil: foi. Mas se eles dissessem “não”, o que aconteceria? Nada. Quando o poder entra, a escolha foge. Tudo fica em família e vira piada para o domingo.

– Mas isso é verdade mesmo? – perguntei ao meu amigo de Ijuí, que nessa altura já chamava urubu de meu loiro.

– Tu acha que eu mentiria pra ti?! Nós somos quase parentes!

Pelo sim e pelo não, resolvi não falar nada.

Vai ver a realidade é privilégio dos bêbados. Quanto mais na política.

P.S.: No instante em que você lê mais esse “conto de férias” (os anteriores foram “O Efeito Gangorra” e “O jogo”), faço vinte e nove anos. O momento em que completarei três décadas de vida se aproxima. Seria o caso de dar “alô!” para a senescência ou pensar nos trocos do INSS? Exagero, convenhamos – algo típico para um leonino, diriam os bobos dos astrólogos com as suas crenças da Idade da Pedra. Seja da forma que for, tenho certeza que as coisas estão apenas começando. Adelante, pois – porque quem anda pra trás é caranguejo.