A espiral do silêncio

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Quem abriu algum jornal nos últimos meses, certamente se deparou com a seguinte manchete: “Caso Bruno”. Da mesma maneira, quem acompanhou os noticiários do país nos últimos anos, com certeza leu outras manchetes semelhantes: “Caso Richthofen”, “Caso Isabella”, “Caso João Hélio”, “Caso Madeleine McCann”, “Caso Daniela Perez”, etc. O que isso demonstra, é o fato de que de tempo em tempo sempre aparece algum crime que pela divulgação maciça da imprensa acaba gerando uma enorme comoção popular, de modo que todas as atenções são voltadas para as repercussões desse crime em incontáveis desdobramentos jornalísticos. O que cabe comentar não é a natureza dos crimes, mas a razão de tantas pessoas se sentirem comovidas por esses casos ao ponto de vibrarem com a condenação dos acusados, como aconteceu quando da leitura da sentença do Casal Nardoni.

Ao que parece, não é o crime em si que gera tamanho clamor, mas sua excessiva divulgação pela imprensa, a qual, de uma ou de outra forma, produz uma visão excessivamente unilateral dos acontecimentos. Essa unilateralidade, porém, aparenta certa imparcialidade que não condiz com o próprio vício da imagem que existe nos meios televisivos, por exemplo. Não existe a menor dúvida de que o destino do Casal Nardoni poderia ser completamente diferente não fosse a atenção que a morte de Isabella Nardoni recebeu da imprensa. De forma idêntica, a discussão acerca da possibilidade de redução da maioridade penal não teria tamanha força nos últimos anos não fosse a cobertura intensa do assassinato do menino João Hélio no Rio de Janeiro ou o caso de estupro e assassinato de Liana Friedenbach em São Paulo.

Esse jornalismo preocupado com a divulgação desses crimes em todos os seus pormenores, aponta uma tendência da sociedade contemporânea relacionada com a “eleição” de determinados sujeitos que servem como uma espécie de expiação para as pessoas extravasarem uma indignação contida que em outros casos jamais chegaria a acontecer. Somando isso ao trato que certos apresentadores de televisão dão aos crimes, marcado por um pedantismo quase religioso que geralmente liga o crime com a ausência de fé em Deus ou com a ineficácia do Estado, forma-se um pano de fundo extremamente propício à profusão de opiniões que muito dificilmente irão se diferenciar daquelas presentes em grande parte da população, o que ocorre justamente pela atenção que a imprensa dá a esses casos.

Isso tudo lembra a Teoria da Espiral do Silêncio, de autoria da pesquisadora alemã Elisabeth Noelle-Neumann. Segundo Noelle-Neumann, os indivíduos buscam a integração social através da observação da opinião dos outros, procurando se expressar dentro dos parâmetros defendidos pela maioria com a intenção de evitar o isolamento. Nesse sentido, as pessoas tendem a esconder opiniões contrárias à ideologia majoritária, dificultando assim a mudança de hábitos com a finalidade da manutenção do seu status social. Essa opção pelo silêncio ocorre pelo medo da solidão social, onde os indivíduos, influenciados pelo que os outros dizem ou pelo que poderiam dizer, optam pelo silêncio quando suas opiniões correm o risco de não ter receptividade na sociedade. Dessa maneira, mudanças sociais somente ocorreriam quando houvesse um sentimento já dominante, o que passa invariavelmente pela imprensa.

O resultado desse processo é uma espiral silenciosa que incita as pessoas a perceberem as mudanças da opinião pública e a seguí-las até que uma determinada opinião se estabeleça como atitude dominante, fazendo com que outras opiniões sejam rejeitadas ou evitadas pela maioria. Conforme Noelle-Neumann, a Espiral do Silêncio trabalha com três mecanismos que condicionam seu funcionamento: acumulação, devido ao excesso de exposição pela mídia de determinado assunto, consonância, relacionada à forma como as notícias são produzidas e veiculadas, e ubiquidade, a qual está para a presença da mídia em todos os lugares. Juntos, esses mecanismos determinam a forte influência da imprensa sobre o público e o seu papel determinante na formulação da percepção da realidade nesse público.

Elisabeth Noelle-Neumann chegou a essa teoria ao analisar uma mudança súbita nas pesquisas de opinião nas eleições alemãs entre 1965 e 1972, identificando o fato de que os eleitores procuravam ajustar suas opiniões de acordo com a opinião dominante, direcionando seu voto ao candidato que se apresentava como vencedor. As opiniões contrárias à maioria tendiam a recair em uma espiral silenciosa, o que, para a pesquisadora, ocorreria em razão do medo do isolamento social que uma opinião contrária ao padrão dominante difundiria em grande parte da população. O resultado disso, por meio da acumulação, da consonância e da ubiquidade, dispôs o “clima de opinião” e o próprio resultado das eleições alemãs da época.
Diante desse cenário, é impossível não relacionar o modo como certos fatos são relatados pela imprensa com a opinião dominante que a população tem sobre eles. Não se discute a culpabilidade ou não dos sujeitos envolvidos em determinados crimes, mas a maneira aparentemente imparcial através da qual esses crimes são tratados. O bombardeio constante e repetitivo de imagens e textos, certamente provoca o surgimento de um senso comum pouco reflexivo revestido com ares de revolta branda, promovendo uma “eleição” de acontecimentos que merecem pouca ou demasiada atenção por parte da imprensa. Pouco importa se Bruno, por exemplo, é culpado ou não. O que importa é que falar sobre isso vende – e muito.