A morte da esperança

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Existem horas nas quais você acha absolutamente tudo inútil. Por que se preocupar com a política se muito certamente as coisas persistirão exatamente do modo como sempre se apresentaram? Por que se preocupar com a educação se a maior parte das pessoas está interessada em adestramento? Por que se preocupar com o direito se suas letras, no mais das vezes, atentam a interesses espúrios, confundindo eficiência com justiça, dignidade com coisificação, harmonia com vigilância e solidariedade com assistencialismo? É triste e ao mesmo tempo complicado, porque essas percepções exteriores, de uma ou outra maneira, vazarão para aquilo que você pensa da sua própria vida.

Entendo, por esses parcos motivos, a razão pela qual alguns indivíduos esquecem seu idealismo, suas bandeiras por mudanças, enterrando tais sonhos em algum assoalho pouco iluminado do inconsciente, para proceder qual o Cândido de Voltaire após suas malfadadas peripécias pelo mundo: apenas se preocupar com o seu quintal. Os reveses que aqueles que trazem alguma esperança na humanidade sofrem dia após dia são de uma natureza atroz, soterrando o ânimo e tornando projetos, tendências e vontades, meras palavras mortas nas páginas de livros pouco abertos, embolorados pelo mofo nas prateleiras das mais desconhecidas bibliotecas.

Somos assim, não adianta. Quando nossos gritos, nossos brados, batem na parede e voltam na forma de um eco sem sentido, afinado pelo incessante barulho de uma realidade dominada por uma vida feita do e pelo capital, desistimos. Passamos a nos preocupar com a carreira, com as coisas que poderemos ou não adquirir, com o bem-estar simplesmente daqueles que nos são próximos e com a ausência de maiores preocupações quanto ao todo, quanto ao cenário pleno. Trata-se de algo perfeitamente possível de se entender: existem horas em que a surra é tanta e tamanha, que você se rende para viver com o mínimo de paz.

Talvez essa seja uma das razões pelas quais vivemos em uma época que carece de grandes líderes públicos. Afora o solitário José “Pepe” Mujica no Uruguai, não consigo visualizar, no rol de pessoas das quais tenho conhecimento e que conseguiram efetivamente adentrar em algum posto público de importância, indivíduos que tragam consigo essa simbiose entre idealismo humanitário e afabilidade honesta seguidos daquele carisma genuíno e não talhado por marqueteiros na frieza de leituras demagogas e neuropsicológicas. Até que, em raras ocasiões, você consegue enxergar um parlamentar que traz verves combativas, como se nota em Marcelo Freixo. Mas tais vozes são tão poucas e tão escassas que acabam se perdendo em uma maré situacionista coberta pelo que de pior existe na “realpolitik” – aquele conjunto de agires que veem a política unicamente do ponto de vista prático, tornando seu proceder uma torrente de negociatas e cooptações.

No Brasil, precisamos de um novo Brizola. No mundo, precisamos de um novo Martin Luther King. Mas qual é a possibilidade do surgimento desses líderes se grande parcela da juventude não consegue analisar a realidade que a cerca um milímetro distante do seu umbigo? Não se trata de um anseio por “salvadores da pátria”, mas de uma constatação do vácuo quanto aos talentos políticos de fato preocupados com o interesse público e não comprometidos até o último fio de cabelo com interesses privados. A crise que vivemos do ponto de vista político não tem apenas a ver com escândalos de corrupção que estouram de hora em hora e com uma estrutura corrompida da base ao topo: tem a ver com a morte das utopias. Tornamo-nos seres práticos e egoístas na medida em que esquecemos da irmandade que nos une enquanto espécie e dos problemas que nos tornam comuns enquanto cidadãos.

Introjetamos a incapacidade de ver o todo ao tempo em que nos concentramos tão-somente nas partes, relacionando-se com o mundo e com as pessoas através de telas estéreis que denunciam a solidão renitente na qual estamos embretados.

Não faço ideia de como superaremos esse problema. Podemos até conquistar planetas e galáxias, desmembrar a infinitesimais partículas da matéria e enfim descobrir os misteriosos mecanismos biológicos que possibilitaram nossa existência. Mas enquanto não evoluirmos como civilização, pouco ou nada disso terá uma real relevância. Enquanto nosso desespero por mudanças permanecer acoplado a imediatismos e bandeiras irracionais, fanáticas, ilusórias e boçais, buscando soluções que tapam o sol com a peneira e não possibilitam a menor perspectiva de um futuro justo e fraterno, permaneceremos nesse atoleiro em meio ao deserto. Se apenas um povo consciente dos seus perigos gera um gênio, como disse Nietzsche, é dessa consciência que necessitamos. Ou seja: antes de formularmos as respostas, precisamos entender as perguntas para só então superar essa morte da esperança que nos acompanha amanhecer após amanhecer, pois o contrário dessa inteligência é a completa ausência de migalhas para sairmos desse labirinto. São necessárias coragem, sabedoria e humanidade. Caso não seja assim, aquela percepção da inutilidade da tudo será nossa única e atemporal companheira.