“Ado-a-ado / cada um no seu quadrado”

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Tenho pavor de gente espaçosa. Sabe aquele cidadão que você vê uma vez a cada morte de Papa e chega como se fosse o cara mais íntimo que você conhece? Pois é. Falo desse tipo. Pior ainda é gente com fala mansa e jeitinho doce. Pode parecer paranoia, mas sempre tenho a impressão de que se trata de alguém pronto pra sentar uma faca nas minhas costelas. O problema é que a moda é ser assim, sociável. Se você apontar sintomas de pouca afeição pela humanidade, é provável que surja um diagnóstico psíquico nada afetuoso. Mais provável ainda, é que não seja selecionado em qualquer dinâmica de grupo que busque novos funcionários mediante a difícil tarefa de estourar balões à procura de papéis com instruções diversas. Afinal, o mercado quer líderes e líderes precisam estourar balões.

Mas o que significa ser sociável? Trabalhar em grupo? Aceitar opiniões alheias? Dar um Sorriso Colgate pra todo e qualquer banana? Não faço ideia. Mas pessoas muito sociáveis costumam me meter medo. Você nunca sabe o que há na cabeça delas. São como as Mulheres Fruta. Por fora, tudo bacana, tudo ok, tudo very good. Mas vá saber o que se passa na mente das criaturas. Ou será que não passa nada? Não sei, não sei. O que parece, é que nossa devoção por embalagens bonitinhas atingiu seu ápice nos últimos tempos. Sujeito tem que ser sarado, ter vida saudável, altas pretensões financeiras e ser vazio de chatonilices. Não vale barriga de jundiá, cerveja com amigos ou manias pra dormir. Tudo deve andar na crista da onda dos carinhas da Malhação. Do contrário, sua pontuação cai e você acaba na parte de fora daquele restrito círculo dos cidadãos bem sucedidos.

O fato é que o bom-mocismo contemporâneo anda cada vez mais irritante. Se você não se preocupa tanto com a causa dos cães de rua, você é um desalmado. Se você não acredita piamente na preservação do patrimônio histórico, você é um ignorante. Se você não faz das tripas coração pra rechear sua conta com mais e mais cifrões, você é um acomodado. Há uma urgência por certo movimento contínuo em uma única direção. Do que é composto esse destino? De promessas. Promessas de uma vida feliz e tranquila. Promessas de uma existência longa na qual você jamais terá que enfrentar a fila do SUS. Promessas de que, lendo certo manual e seguindo certas regras, invariavelmente você atingirá o sucesso. Promessas em cima de promessas fincadas em um ideal de vida cimentado por rostos amigáveis e carros do ano.

Talvez isso seja bom. Quem sabe, o que todos queiram. Duvido alguém que renegue coisas do tipo. Mas sustentar todo um futuro em torno de expectativas do gênero, sempre será frustrante. As quedas virão. Os desassossegos surgirão. E o que você fará? Engolirá a mais nova pílula da felicidade e seguirá com a cabeça ereta, como se todo seu corpo estivesse enrijecido pelo mais potente Viagra? Convenhamos: as coisas não são bem assim. Precisamos cair. Precisamos nos desesperar. Riso demais é desespero. Sociabilidade em excesso é carência ou falsidade. Não existe nenhum problema se você acorda xingando o dia ou a capa do jornal. Isso é humano, isso é natural. Quem não tem gorduras ou defeitos? Quem não tem preconceitos, vícios ou dentes um pouco amarelados? Ninguém, ora. Então pra quê negar tais pontos? Por qual razão viver na frustração de um objetivo que jamais será alcançado? Isso é bobo, muito bobo.

O problema é que gostamos de cultuar bobeiras. Vivemos a maior parte do tempo como quem faz cruzadinhas. Negamos o essencial e nos preocupamos com os enfeites. Parece que a cereja do bolo vale mais que o bolo em si. Ao invés de olharmos para o lado e nos darmos conta de que estamos todos no mesmo barco, viajando sem eira, beira ou propósitos por um Universo repleto de mistérios, seguimos nos preocupando com mesquinharias que nada nos acrescentarão além de dores de cabeça. Claro que você pode ralar na academia. Claro que você pode suar neurônios pra passar em um concurso. Além de você, ninguém é responsável pelos seus passos. Você está condenado à liberdade e à responsabilidade que surge dessa condenação sem remetente. Mas você deve se dar conta disso. Você deve sentir o absurdo da sua condição a todo momento para que efetivamente perceba o valor que existe em cada instante da sua vida. Se não for assim, bobeiras musicais, bobeiras sentimentais, profissionais ou místicas irão tomar conta da sua vida.

Isso tudo me lembra um parente de São Luiz que via e vejo raramente. Quando eu tinha meus quinze anos, ele vinha todo espaçoso, sorridente e cheio de dedos pra largar: “Mas esse guri dá um baita jogador de basquete, hein?!”. Ao que eu respondia: “De forma alguma: minha especialidade é jogar sinuca”. Daí ele ficava encabulado e me deixava em paz. Hoje em dia, as coisas não mudaram muito pro meu lado. Se alguém que mal conheço chega todo querido, fecho a cara e me imagino trancado no quarto, lendo James Joyce sem entender bulhufas. Com essas pretensões muito certinhas, funciono do mesmo jeito. Desconfio de tudo o que promete demais e todos que são perfeitos demais. Trago mil pulgas atrás da orelha com alegria em excesso, entusiasmo em excesso e escassez total de preguiça. Não é que não goste do ser humano. Pelo contrário, gosto de gente. Mas gosto de gente que é gente e não tem medo de ser gente. Com os demais, esses que se querem sem defeitos e preocupados com a fome na África, apenas convivo.
É como dizia o poeta: “Ado-a-ado / Cada um no seu quadrado”. E ponto final.