Aquilo que falo quando não tenho nada a dizer

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Ultimamente ando sem opinião para nada e me assusto ao constatar que quase todas as pessoas que conheço possuem um posicionamento para os assuntos que estampam os jornais. Serei eu o boçal, o desligado, aquele que não consegue posicionar os fatores de uma equação de forma certeira ao ponto de saber o que pensar acerca de determinado tema? A possibilidade é grande, uma vez que não sou dos mais inteligentes – sem contar que, com o passar do tempo, noto nitidamente que meu ímpeto criativo, por exemplo, somente decai.

Lembro-me de uma época na qual minha vibe era ler e escrever poesia. Versos saíam aos borbotões, páginas e mais páginas sem muita dificuldade. Quando releio tais escritos, fico estupefato: o sujeito daquelas palavras realmente sou eu? Tudo bem que havia muita porcaria, frases e parágrafos que decididamente não mostraria para ninguém. Mas por que era tão mais fácil escrever e ter uma leitura diferente do mundo há alguns anos? Será que me acomodei e simplesmente já pairam sobre mim os efeitos nefastos da degenerescência a qual toda e qualquer vida está submetida? Quero crer que não – mas, pelo modus operandi do meu cérebro, sei que não posso excluir tal hipótese, muito embora intua que não passe de pura frescura.

É engraçado pensar nisso quando tomo por norte uma noite dessas, em dezembro, quando reencontrei velhos amigos, todos na casa dos 30. Entre cervejas, risadas e algumas reclamações quanto ao sexo feminino, tendo um Pink Floyd ao vivo em Veneza por pano de fundo, constatamos que todos estávamos com alguma doença. Problemas de pressão alta, problemas na coluna, problemas de estômago e problemas decorrentes do estresse e da ansiedade. Parecíamos uma trupe de senhores de 60 e poucos anos que se reúne para ler bulas de remédio e trocar ideias sobre qual médico ou plano de saúde é o melhor.

Chegamos a cogitar que tudo é em decorrência de cachaçadas passadas – mas o que ficou claro para mim, quando infelizmente tivemos de nos despedir, é que todos estávamos um pouco preocupados com reveses do futuro. No meu caso, como falei em outra oportunidade, quando descubro o que tenho, fico tranquilo – mas, até descobrir, mil pulgas rodeiam minhas orelhas. A interrogação quanto ao estado da minha carne me incomoda – mas talvez não incomode tanto quanto a interrogação sobre o estado da minha mente. Daí é que volto à questão da minha ausência de opiniões concretas atualmente.

Poderia falar sobre o aumento que teremos nas contas de energia elétrica nesse ano que se inicia? Poderia. Poderia dissertar acerca da barbárie que constituiu o ataque à Charlie Hebdo na França e do massacre ocorrido na Nigéria na última semana? Obviamente que alguma coisa sairia. Mas, olhando para esses assuntos, os quais fazem veias saltarem do pescoço de tanta gente, não consigo formular uma ideia clara. Sinto, acima de tudo, que nossa época é algo entre o findar da noite e o nascer do dia: aquele lusco-fusco no qual ninguém consegue divisar ao certo a forma que as coisas possuem, não trazendo plenos referenciais para dizer o que é sombra e o que é matéria.

Isso me causa certo mal-estar com o qual costumeiramente consigo lidar – mas que em certos momentos detona os choques dos meus neurônios e apenas formiga meus braços e mareja meus olhos, como quem se vê em uma encruzilhada sem ter a menor noção do caminho que deve seguir. Talvez – e apenas talvez – seja assim que a maioria se sente, ainda que renegue e procure encobrir essa sensação com palavreados sem fim, buscando território firme em plena areia movediça. Mas, como é rotineiro, não posso afirmar nada fora do plano da total conjectura.

O que sei, porém, é que prefiro não saber a pensar que sei e sair por aí abobalhado em besteiras. Reconhecer nossas limitações, mesmo ao custo de algumas pequenas angústias, é fundamental. Dói? Um pouco, mas é melhor que correr o risco de influenciar as pessoas com pensamentos acerca dos quais você não detém qualquer certeza. O certo é que ficarei mais alguns dias sem ter nada de útil para falar, dizendo desse marasmo mental como quem toma um chimarrão e olha a rua pela sacada sem qualquer intenção a não ser olhar, perguntando-se incessantemente com um riso em colchete: por que diabos escrevi esse texto?