Autômatos

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Gosto de observar o cotidiano das pessoas. Não sou um voyeur ou algo do gênero: apenas me agrada perceber a forma como agem e se relacionam. Quem convive comigo, talvez pense que passo com a cabeça nas nuvens. Mas as coisas, cá dentro dessa carcaça, não funcionam necessariamente desse modo. Não é porque não seja de fazer fofocas sobre a vida alheia, por exemplo, que deixo de notar os movimentos daqueles que cruzam por mim. Muito pelo contrário, presto atenção em gestos, palavras e pequenos cacoetes, ainda que, em virtude de certo desassossego da memória, raramente consiga gravar faces e nomes – o que já me colocou em diversas saias justas.

Há algumas semanas, encasquetei de reparar durante dias narotina de um restaurante. Não foi uma observação sistemática, daquelas que você toma nota qual um cientista que analisa mitocôndrias. Tratou-se de um olhar descompromissado que beira a contemplação – mas nem por isso deixa de esmiuçar as marcas que percebe. Dentre passos apressados de garçons e clientes xaropes reclamando da conta ou simplesmente bebendo além da quota suportada pelo fígado, deparei com algo interessante: a automatização do dia-a-dia.

Certa feita, em um final de tarde chuvoso, ensimesmado em ventos de quase tempestade, funcionários desse restaurante posicionaram mesas e mais mesas em um local descoberto do estabelecimento. Era certo que ninguém sentaria ali. Como um cara poderia saborear uma pizza ou um filé à parmegiana debaixo d’água? Não faria sentido. Mesmo assim, movidos por reflexos instintivos, uma dezena de indivíduos colocou e arrumou com apreço e cuidado umas vinte mesas no pátio do local. Certamente estavam seguindo ordens. Tipo: se o patrão fala que de tardezinha você deve varrer a calçada, você faz isso sem refletir – não importando vendavais ou quaisquer eventos climáticos que ocorram no momento. Afinal, como reza o famigerado ditado, “manda quem pode e obedece quem precisa”.

Mas vêm cá: e a lógica disso? Quer dizer que todo e qualquer mandamento, independente do seu absurdo, deve ser seguido de forma irracional, como se, enquanto espécie, não passássemos de autômatos ou bonecos de carne presos por amarras invisíveis que obedecemos sem questionar? Não está certo – a não ser que você seja daquele tipo babão, cachorrinho adestrado que se alimenta de hierarquia e nada mais. Sei, porém, que há gente desse naipe e que não se importa com isso – o que, convenhamos, denota uma posição extremamente fácil, já que o cara que anda por esses terrenos nunca assumirá total responsabilidade por nada e sempre colocará a culpa no vizinho se algo der errado.

É muito perigoso esse senso. Em 1961, 15 anos após o término da Segunda Guerra Mundial, Adolf Eichmann, ex-oficial nazista, ao ser confrontado com a acusação de genocídio diante de um tribunal em Israel, declarou que era inocente de todos os crimes contra a humanidade que lhe eram imputados, uma vez que estava seguindo ordens. Ou seja: mesmo sendo responsável diretamente pela logística do transporte de milhões de indivíduos a campos de concentração nos quais seriam posteriormente assassinados, Eichmann tirou o corpo fora e arguiu que não passava de uma peça na cadeia de comando, de maneira que esse fato, por si só, retirava toda a responsabilidade que poderia recair sob seus atos.

Esse caráter de Eichmann foi retratado por Hannah Arendt na obra “Eichmann em Jerusalém”. Segundo a filósofa, o tenente-coronel da SS não apresentava quaisquer traços antissemitas ou doentios – e acreditava cegamente que estava cumprindo o seu dever, o que fazia na intenção de angariar degraus na carreira, movido por uma racionalidade absolutamente burocrática. A partir do caso de Eichmann, Arendt cunhou a expressão “banalidade do mal”, referindo que, dadas certas circunstâncias, o vazio do pensamento anda de braços dados com a trivialidade da violência, ocasionando uma percepção para a qual o sujeito humano não possui nenhum valor.

Imagino que os garçons do restaurante que bisbilhotei de longe não possuam nenhuma característica genocida ou cruel. Mas não dá para deixar de mencionar que seus movimentos irrefletidos, automatizados e mecânicos, na senda do mero cumprimento de ordens, possuem algum parentesco longínquo com o caso de Eichmann. Quando a razão se furta de moral e toda a direção é comandada pela frieza dos objetivos, pouco importando seu teor, os resultados podem ser catastróficos – como na situação relatada por Arendt – ou apenas imbecis – como as mesas arrumadas ao relento e à chuva. Pelo sim e pelo não, acho que sempre trarei um sorriso em colchete para pessoas que não questionam sua rotina. O “bom moço” e o “bom empregado” nem sempre são tão bons assim.