Câncer colonial e imbecilização

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Câncer colonial

O conceito de “administração pública” não existe por acaso. Significa, sem maiores pormenores, gerenciar a coisa pública em prol do bem coletivo. Entretanto, se uma “administração” que se diz “pública” promove uma “gerência” apartada do “bem coletivo”, trata-se, sem nenhuma clemência, de uma “administração não-pública”. Ou, em um afã mais conectado à realidade, de uma “não/administração não-pública”.

O que isso quer dizer? Total incompetência e total descabimento, tanto político quanto legal, visto inexistir qualquer representatividade quanto aos interesses da população que sofre nas mãos de “pseudo/administradores” que não passam de meros aproveitadores do que deveria “ser comum”.

Quando algo assim ocorre, críticas não são meros artifícios para atacar uma pessoa e/ou um partido, mas existem para colocar em questão todo o sistema que propicia a existência de tais anomalias. Óbvio que no Brasil há um tremendo descompasso entre a letra da lei e a realidade das ruas. Mas não podemos encarar isso como se fosse “algo normal”, “natural para um país como o nosso”. Pensar desse modo é rebaixar toda e qualquer perspectiva de mudança ao status de puro esgoto, lorota que se conta em mesa de bar.

Por esses motivos é que o descaso da administração pública (ou da “não/administração não-pública”) não é normal, assim como a pobreza e a desigualdade social não são normais, por exemplo.

O problema das nossas concepções de vida e de mundo começa justamente aí: acostumamos os sentidos a uma única realidade, como se não houvesse nada mais para além dessas arestas, dessa janela.

Toda transformação real começa por uma transformação mental – e não haverá nem uma nem outra enquanto não mudarmos nossos paradigmas de avaliação da realidade. Claro que para isso é necessária educação, cultura e informação. Mas em que ponto novamente caímos? Na administração pública (ou, insisto, na “não/administração não-pública”), fazendo com que o problema, no fim e no início, morda o próprio rabo e acabe girando em torno de si mesmo.

Diante desse cenário, lembro de uma coisa que falo há anos: somente a consciência de um problema pode promover a superação desse problema. Por isso, concluo: é preciso colocar a sociedade no divã para que possamos examinar seus medos e anseios na tentativa de compreendê-los e superá-los um a um.

Sem esse despojamento de preconceitos e visões reducionistas, esqueçam: não haverá mudanças e continuaremos nas rédeas de aproveitadores que são o câncer da estrutura estatal brasileira desde os tempos do Brasil Colônia.

 

Imbecilização

Direito é cachaça.

Mas uma cachaça fortíssima, que por vezes cria zumbis que pensam que a lei é algo como uma “revelação”, uma força sobrenatural que se sobrepõem a quaisquer sensos críticos.

Esse é o dilema: passamos dias e dias discutindo “se pode” ou “não pode” – e acabamos não questionando as forças embretadas entre um e outro ponto, entre o “poder” e o “não poder”.

Claro que a técnica é essencial – nunca é demais dizer.

Mas “técnica por técnica”, concebida como começo, meio e fim, não é nada mais que imbecilização – pois quando o direito perde seu caráter transformador e se torna apenas instrumento de satisfação para ambições individuais, gueto no qual se digladiam interesses egoístas, a própria humanidade resta furtada da possibilidade de um futuro justo.
Talvez Lenio Luiz Streck esteja certo: é hora de começar a estocar comida.