Cansaço

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Cansei de falar sobre política. Possivelmente seja temporário. Nesse momento, entretanto, cansei. Talvez seja pelo excesso de carros de som, propagandas na tevê, gente com bandeirinhas em cada esquina e choramingos inócuos no Facebook. Talvez seja uma mistura de desilusão, nojo e vontades de mudanças brecadas pelo choque de realidade. Mas sinceramente, acho que não passa de preguiça.

Dá preguiça ouvir tanta gente bradando imbecilidades aqui e acolá. Dá preguiça ver conhecidos seus, hoje candidatos, comportando-se de modo diferenciado, possivelmente instruídos por marqueteiros ou pelo pessoal das relações públicas. Dá preguiça perceber que o debate, aquele verdadeiro, fincado em ideias, objetivos e projetos viáveis, cede espaço à pura e rançosa polêmica, assemelhando-se a uma briga de crianças pelo brinquedo mais bonito no jardim da infância. E dá mais preguiça ainda perceber que a população, em sua maioria, pensa que “isso é política” e que “as coisas são e sempre serão assim”.

Quem sabe eu esteja errado em trazer comigo algumas veias idealistas. Possivelmente se trate de efeito reverberado ano após ano em função de algumas experiências que tive. Melhor seria, às vezes penso, olhar para o mundo como quem encara um trabalho enfadonho e sabe que, apesar de tudo, aquilo tem de ser feito. Mas como seguir essas trilhas? Simplesmente não dá, ao menos tendo por norte o temperamento que trago. Aquietar-se em um canto e cultivar o próprio quintal sem sequer se preocupar com o que ocorre do outro lado da rua não é do meu feitio.

Claro que tenho me tornado mais pragmático conforme o tempo passa, enredado na teia cotidiana como quem sente falta do seu emprego quando está em férias. Mas tenho certeza de que esse não sou eu. Por exemplo: quando tenho algumas preocupações que me tiram o sono, costumo imaginar o que existe para o lado de lá dessa fina atmosfera na qual vivemos, zanzando pelo Cosmo sem que saibamos ao certo do que se trata. Visualizo planetas, estrelas, buracos negros e galáxias mudas pelo sufoco do vácuo. Essa imensidão aterradora, até mesmo cruel, tranquiliza meu cérebro e consigo dormir sossegado. Afinal, diante da enormidade de questões e possibilidades que a vida nos traz, por que raios se preocupar com picuinhas que, na sinuca do “sim” e do “não”, passarão assim, sem mais?

No way, baby.

Ocorre que essa tática nem sempre funciona. Parece que quanto mais quero aquele estado letárgico de quase sonho, mais o mundo berra, grita, bate à porta feito convidado indesejado. Tudo se mescla com tudo e aquela vontade de dizer “cara, não é assim!” volta com toda a força. Aí está o problema de pensar sobre a política nacional, principalmente em época de eleições. Você até quer se manter alheio, tocar sua vida e que se lasque o resto. Mas aquelas crenças que você traz por debaixo dos calos da existência pulsam diante de alguns casos e ocasos, fazendo com que todo o seu cansaço e a sua preguiça se tornem palavra, frase, parágrafo, texto e indignação.

Conhecer a si mesmo é reconhecer quem se é e não fugir dessa imagem.

Com o Brasil em tempos de corrida eleitoral, deveria se dar o mesmo. Falta-nos um espelho verbal ou um quartinho fechado que nos faça escutar tim-tim por tim-tim as bobagens ideólogas que propalamos sem necas de pensar. Falando mais claramente, falta-nos vergonha na cara.

Mas que nada: vi na Globo News que a Índia fez um satélite chegar a Marte e isso me acalma – ao menos até a próxima manchete ou até o próximo comentário infame que meus ouvidos serão obrigados a presenciar.